Um político exemplar

Ao ler artigo do professor Roberto Romano, da Unicamp, por título ?Renasce a censura?, pela retina e memória brotaram pensamentos de um tempo terrível. Era época de tirania, onde os censores eram os senhores de cutelo e baraço. O ilustre pensador Roberto Romano transcreve um verdadeiro dossiê da censura ditatorial. Em 26 de março de 1973, determinava: ?Está proibida a divulgação ou comentário sobre o discurso pronunciado hoje na Câmara pelo deputado Freitas Nobre, sobre censura à imprensa?.

A recordação saudosa do grande companheiro e exemplar parlamentar que dignificou o Congresso Nacional em seguidos mandatos foi instantânea. Freitas Nobre foi um homem público da maior estatura ética e moral entre os que já tenham passado pela Câmara dos Deputados. Infelizmente, o Brasil é uma sociedade sem memória. E hoje, nesse tempo de mediocridades triunfantes, poucos têm lembrança do extraordinário papel de Freitinhas na luta pela redemocratização brasileira.

Fui seu colega por vários mandatos. Líder do MDB e do PMDB, em várias legislaturas, Freitas Nobre imprimia uma firmeza hercúlea, comandando no parlamento a oposição naqueles tempos de treva. E uma história de bravura. Firme nas suas convicções democráticas, enfrentava os desafios com o seu temperamento fidalgo, uma voz calma, onde a exaltação inconseqüente não encontrava eco. Exerci, a seu convite, a vice-liderança do partido em alguns dos seus mandatos de líder, podendo conviver com um homem público de grande dimensão humana e fraterna.

Vice-prefeito de São Paulo, na gestão de Prestes Maia, em 1964, quando do golpe militar logo se insurgiu contra a intolerância. Professor da USP, resolveu fazer curso de especialização na Sorbonne. Na França, pioneiramente escreveu a sua tese de doutoramento, encontrada até hoje, nas livrarias de Paris, em livro por título Le Droit de Information. No Brasil, o seu texto Imprensa e Liberdade. Os Princípios Constitucionais e a Nova Legislação é obra de consulta obrigatória.

Em 1970, elege-se deputado federal e ao lado de Chico Pinto, Alencar Furtado, Lisâneas Maciel, Fernando Lyra, Marcos Freire, Amaury Muller, Jaison Barreto, Nadyr Rossetti, Paes de Andrade, Severo Eulálio, Josaphat Borges e outros parlamentares, integra-se no ?Grupo Autêntico?, que iria escrever um vigoroso capítulo histórico na vida do MDB. A anticandidatura de Ulisses Guimarães, contra o general Ernesto Geisel, em 1973, foi uma articulação dos autênticos. E serviu para fazer a colagem popular dos resistentes à ditadura, que até então anulavam o voto ou votavam em branco. Em 1974, a vitória eleitoral do MDB nas eleições para o Congresso Nacional foi o reflexo dessa estratégia de ativo combate ao poder militar.

Freitas Nobre nos seguidos mandatos de deputado federal foi um representante do povo paulista com integral dedicação. Era um político republicano. O mandato era um instrumento para servir ao bem comum. Missão que cumpriu com exemplar dignidade.

A história política de Freitas Nobre não pode ser esquecida e deve ser resgatada. A Câmara dos Deputados deveria, na sua coleção de perfis parlamentares, editar um volume sobre a atuação desse notável e saudoso político. Seria inestimável contribuição para o futuro e para a própria história da casa legislativa. Falecido há década e meia, Freitas Nobre precisa ter a sua biografia política integrada naquela coleção. A Câmara estará tributando as honras merecidas a um parlamentar que dignificou o voto popular.

Um exemplo para gerações.

Hélio Duque é ex-deputado federal. www.ndnewsonline.com.br

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