Um Nobel para o Banestado

Em novembro de 1928, Affonso Alves de Camargo criava uma instituição financeira que deveria ser a mola propulsora do desenvolvimento social e econômico da nossa gente, o Banco do Estado do Paraná. Ele estaria completando 78 anos no dia 28, terça-feira última. Independente do que o futuro lhe reservou, o Banestado foi, enquanto bem administrado, um verdadeiro agente de fomento, participando ativamente nos setores da sociedade paranaense, promovendo o desenvolvimento rural, comercial e industrial, presente na quase totalidade dos municípios.

Nasceu e cresceu com o Paraná e foi um alicerce na economia do Estado, além de ter fincado as estacas mais firmes e fortes que nossas gerações puderam testemunhar, até que um ?tsunami?, ainda indecifrável, o derrubou. Como o Banestado faz parte de muitas histórias, e em razão dos motivos que originaram o Nobel da Paz deste ano ao Grameen Bank (Banco das Vilas), para o banqueiro bengalês Muhammad Yunus, que, por conceder empréstimos às pessoas pobres e empreendedoras da periferia, foi o escolhido de 2006, tal reconhecimento mundial me levou a recordar e retornar ao ano de 1984, quando José Richa era governador do Paraná e que queria criar oportunidades para a gente de menor renda, incentivar pessoas com talento e de fundo de quintal, pessoas e famílias que trabalhavam em casa com alguma habilidade manual, com alguma espécie de produto ou serviço e ajudá-las no seu crescimento.

Para esse projeto foi convocado o banco do nosso Estado. Um grupo de abnegados funcionários, tendo José Carlos Campos Hidalgo na presidência e José Tarcizo Falcão na diretoria de crédito, foi o responsável por criar a primeira linha de crédito sem juros e sem burocracia do País, não exigindo cadastro, conta em banco e coisas do gênero! Em 1985, o governador José Richa direcionou 3 milhões para o programa, e quem tivesse uma idéia, uma vocação, tivesse uma microempresa ou vontade de estabelecer uma, ou quem fosse o que hoje chamamos de empreendedor, estaria habilitado ao crédito. O volume de recursos saltou de 3 para 30 milhões, pois catarinenses, gaúchos, ou o estado onde o banco estivesse operando, exigiam participação nesse programa.

O leitor mais crítico poderá interpretar que esse foi um dos começos para o andar mal do Banestado: operar com pessoas pobres, sem referência, sem garantias. Mas não. A exemplo do banco de Bangladesh, onde o percentual de inadimplência é de 3%, o banco paranaense apontou um percentual ainda mais baixo, como atestou o diretor Valmor Pícolo. O programa do Banestado, um banco estadual, foi elogiado pelo governo federal, tanto que o ministro Dílson Funaro, da Fazenda, o indicou a várias autarquias; o ministro José Hugo Castello Branco, da Indústria e Comércio, o recomendou ao Sebrae, na época era Cebrae; o Ministério da Desburocratização, através do ministro Paulo Lustosa, hoje na Funasa, esteve no Paraná, foi ao Rio Grande do Sul com o Banestado, recrutou funcionários para implantá-lo a nível nacional e gerou tanta ciumeira, que o ministério acabou extinto.

O atual vice-presidente da República, José Alencar, que na ocasião presidia a sua Coteminas, foi um dos primeiros a vir ao Paraná, conhecer e debater o programa, apoiá-lo; e aqui vale um registro, não quis e nem aceitou ressarcimento da sua passagem e tampouco a hospedagem.

Quando vejo o mundo elogiando Yunus pelo seu programa de crédito e leio o artigo do presidente do Senado, Renan Calheiros, ressaltando a atuação do Grameen Bank e por extensão cumprimenta o Banco do Nordeste, que em 1998 criou o CrediAmigo, o Sebrae que em 2001 lançou o Programa de Apoio ao Segmento de Microcrédito, às instituições que por suas iniciativas criaram crédito nessa direção e pede, por último, o aumento desse percentual e novas linhas para as pessoas de baixa renda, é preciso, por um dever paranaense, resgatar a história, e mesmo que o Banestado não aniversarie nem exista mais, dar um Nobel simbólico de presente a ele, ou a alguns dos governadores, ou a alguns de seus dirigentes e funcionários, que com programas como o Bom Emprego, Gralha Azul, Panela Cheia e Supermicro fizeram a verdadeira história do Banestado.

João Garcia é bancário aposentado e foi superintendente nacional da Sunab, em Brasília. 

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