Ivan Schmidt
Talvez a mais amarga das frustrações de político em cargo executivo é concluir que não conseguiu, por inaptidão ou egoísmo, transferir para um seguidor próximo, filiado ao mesmo partido, a batuta de candidato natural à sucessão. É o que ocorre com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a três anos das eleições gerais, infelizmente desprovido da satisfação pessoal de localizar, dentre os companheiros da caminhada histórica do PT rumo ao poder, aquele que pudesse reunir as mínimas condições de dar continuidade ao ciclo iniciado com a espetacular eleição de 2002, repetida em 2006 ainda de forma mais categórica.
O candidato natural à sucessão de Lula seria José Dirceu, poderoso ministro-chefe da Casa Civil da Presidência da República nos primeiros tempos do governo anterior, aclamado por todos como a eminência parda tanto do partido quanto do lulo-governo, instâncias sobre as quais impunha a suprema autoridade de um Richelieu caboclo. Mal sabia o cidadão que a queda seria inglória e fragorosa, mortalmente picado pela ilusão de se acreditar na pele do artífice e comandante de uma superestrutura que subordinava, inclusive, a magna figura presidencial.
Dirceu caiu do galho com o estardalhaço digno de sua cobiçada posição, como diria Mencken, com a extrema precisão de um estripador, porque acabou perdendo a credibilidade, que é a moeda mais forte da vida pública. Aliás, o antigo camarada de armas da frustrada revolução socialista brasileira teve de deglutir amargo fel ao ouvir da boca de seu maior desafeto, o janota ?collorido? Roberto Jefferson (a quem o presidente Lula daria um cheque em branco e iria dormir tranqüilo), o mandado inexorável: ?Zé, sai daí rapidinho?.
Hoje o presidente Lula, a rigor, não vê à sua frente nenhum pré-candidato petista a quem possa entregar o bastão, embora esteja flanqueado por virtuais aspirantes ao cargo mais importante da República. Alguns deles podem ser vistos com freqüência nas cercanias do Palácio do Planalto, o ministro Nelson Jobim, o deputado Ciro Gomes e o novíssimo mandarim republicano, o governador fluminense Sérgio Cabral Filho, a quem em sã consciência poucos colocariam na lista prévia, mas haverão de testemunhar o esforço descomunal que, a seu tempo, fará para empalmar a candidatura.
Não se afirme de modo leviano que o PT não dispõe de pré-candidatos, pois os abriga em número superlativo: os ministros Patrus Ananias, Dilma Rousseff e Marta Suplicy, o sempre disponível senador Eduardo Suplicy (Mercadante despencou como um balão murcho depois do dossiê Vedoin), o governador da Bahia, Jaques Wagner, ou mesmo o deputado federal José Eduardo Cardozo (SP), um dos petistas infensos ao escândalo do valerioduto. Nenhum com chances reais de ir além da mera figuração.
Se algum erro pode ser lançado à conta do presidente (e ele cometeu muitos), o principal foi não ter transferido a um companheiro de partido o legado da sucessão, embora a sentença seja suavizada pela atenuante de nenhum ser portador do carisma indispensável para uma disputa tão acirrada, mesmo com o apoio direto de Lula. Por isso, a bolha de sabão de seduzir o governador Aécio Neves a se filiar ao PMDB e disputar como candidato único da base aliada.
Assim, o sonho do petismo de resultados de construir um esquema de poder suportado em sucessivas eleições presidenciais findou antes do tempo, porquanto somente teria sido possível se, para cada campanha, o partido contasse com quadros dotados de força moral, capacidade de realização e liderança incontestáveis. Atualmente, ocorre o inverso: o PT não tem candidato à altura de ocupar o lugar de Lula no lugar mais destacado do palanque eleitoral.
No Paraná, o cenário é o mesmo. O governador Roberto Requião, cercado de ?puxa-sacos, incompetentes e ignorantes?, conforme atestou o ex-procurador Sérgio Botto de Lacerda, ou de ?ladrões?, para não discordar da autocrítica do demiurgo do Cangüiri, não tem candidato em condições de ganhar a eleição para a Prefeitura de Curitiba. Dos nomes em evidência no PMDB nenhum empolga o eleitorado, uns porque representam o raposismo político ou o deslumbramento dos jejunos e, outros, porque aspiram tão-somente um espaço, mesmo fugaz, para extravasar a vaidade.
Em se tratando do governo estadual, em 2010, encontrar candidatos no partido do governador é o mesmo que descobrir chifres em cabeça de cavalo.
Ivan Schmidt é jornalista.