Radialista evangélico de profundo apelo populista convertido à política. Fato corriqueiro neste imenso País de dimensões continentais, de novo a afirmação rebarbativa que você já leu tantas vezes, mas sabe que não tem o menor sentido, pois a verdade cruel é que o gigante continua adormecido em berço esplêndido, não se sabe até quando.
O cenário primitivo é a cidade de Campos, na região norte do Estado do Rio de Janeiro, riquíssima em petróleo, aninhado em águas profundas do Atlântico. O personagem chama-se Anthony Matheus, que por artes da fama adquirida ao falar na latinha logo incorporou o apelido Garotinho, usado e abusado nas emissões radiofônicas de conteúdo apelativo e mesmerizante.
O mesmo lance repetido à náusea Brasil afora, por miríades de replicantes (difícil é saber quem imita quem), distribuindo cadeiras de rodas, óculos, dentaduras e descolando, com um pouco mais de traquejo e organização, algum emprego de doméstica, guarda noturno e cobrador de ônibus, o que já é alguma coisa, diga-se de passagem.
Assim Garotinho se elegeu vereador e prefeito de Campos e, audácia, governador do estado, porque teve a esperteza de filiar-se ao Partido Democrático Trabalhista (PDT), sigla criada por Leonel Brizola depois da tosca armação do general Golbery do Couto e Silva (diziam ser muito inteligente, mas não parece), que lhe surrupiou o velho PTB de guerra e o confiou à deputada paulista Ivete Vargas, sobrinha de Getúlio e factótum do estrato mais abominável do sindicalismo da época, o peleguismo.
A bem-sucedida verve utilizada por Garotinho no contato com a massa, nas suas intervenções radiofônicas (mais tarde na televisão), aliada à desenvoltura ensaiada dos idealistas (ou oportunistas?), logo o fez ascender ao estrelato pedetista e, num passe de mágica, levou-o à candidatura ao governo do estado, com o apoio entusiasmado de Brizola, o homem que mandava e desmandava no partido, como faziam os encarquilhados morubixabas, desde os tempos de Cunhambebe.
Não demorou a brigar com o engenheiro e para se eleger tramou um acerto com o PT, sob os auspícios de Lula e José Dirceu, dando à senadora Benedita da Silva o cargo de vice-governadora. Foi o que se viu. Candidatou-se à Presidência da República, seu destino manifesto na política, pois é moda invocar a constrangedora veracidade que Deus sempre acaba inspirando coisas do tipo, em momentos de êxtase, jejum e oração, àqueles que lhe são fiéis… mesmo não havendo testemunhas confiáveis da suposta manifestação do altíssimo.
Garotinho perdeu a eleição presidencial, apoiou Lula no segundo turno e pouco depois pulou do barco, ingressando no PMDB. O cara gosta de emoções fortes. Antes de tudo isso, porém, exalte-se uma de suas maiores façanhas e demonstração visível de quão longe pode chegar o populismo: a eleição da mulher, Rosinha Matheus, para o governo do Estado do Rio de Janeiro.
Mais uma vez na estrada – ele não desiste nunca – Garotinho foi o primeiro a se inscrever às prévias que o PMDB realizará para definir o candidato presidencial tendo em vista a decisão de disputar a eleição com candidato próprio. A disposição de Matheus não surpreendeu ninguém e as raposas peemedebistas agora coçam a pelagem felpuda, diante da fatalidade já admitida de perder a legenda para um político de atuação marcada – no mínimo – pelo exagero arrivista que tanto horror causa aos neo-udenistas signatários do espólio do partido-ônibus.
Ocorre que o discurso embolorado da eterna vigilância como preço da liberdade é coisa dos tempos de Carlos Lacerda, Bilac Pinto, Irineu Bornhausen, Abreu Sodré, Adauto Lúcio Cardoso, Juraci Magalhães, José Sarney e, pasmem, Antônio Carlos Magalhães, nomes facilmente lembrados daquele período jurássico da política brasileira que barbarizavam o coreto getulista e do legatário Juscelino Kubitschek, hoje transformado em herói republicano pela Rede Globo.
Anotem para conferir mais tarde: se a decisão não for revogada, Garotinho passará como um trator sobre os dirigentes do PMDB e imporá a candidatura pela força de métodos suasórios copiados da pior vulgata malufista, manipulando delegados do interior a seu talante. Esta será uma pincelada a mais no triste e arrastado epílogo do grêmio sonhado pelo doutor Ulysses.
A preocupação começa a assomar entre os históricos e o primeiro a falar abertamente foi o governador Roberto Requião. Sua indagação vai ao coração da matéria: Candidatura, assim, para quê?
Ivan Schmidt é jornalista.