Na velha Grécia, Aristóteles proclamava: ?Só pode ser feliz um Estado edificado sobre a honestidade?. Numa paródia ao grego imortal, diríamos que o respeito aos compromissos assumidos nas preliminares de uma disputa eleitoral é edificar a verdade e por conseqüência a honestidade. Verdade, honestidade e respeito ao anônimo votante é dever do homem público. Prometer e não cumprir metas assumidas no momento eleitoral e jogá-las às calendas gregas quando no poder é um dos fatores determinantes para a falta de credibilidade da política brasileira. Passou a ser lugar-comum nos programas de governo, quando em disputa o Executivo, prometer o paraíso e muitos nem o purgatório alcançam, mas jogam as suas promessas no inferno do cotidiano da vida dos pobres mortais.
Os exemplos são inúmeros, dispensável enumerá-los. Mente-se ao eleitorado com solenidade típica do Estado Espetáculo. Os boquirrotos autoritários fazem promessas vãs, usando a facilidade do marketing muito bem produzido em filmetes dos Dudas Mendonças e sucedâneos, exibidos nas telas das televisões no horário eleitoral. Aí reside uma das causas da crise política brasileira. Ela não se localiza somente no poder federal, mas se multiplica pelos estados e por inúmeros municípios.
Nesse cenário de falta de credibilidade dos administradores públicos, passamos a viver crises recorrentes onde a desmoralização da classe política passa a ser acontecimento normal. O anormal passa a ser respeitar o compromisso assumido pelos administradores públicos que têm vergonha na cara.
Em Curitiba, tivemos há poucos dias um exemplo acabado dessa anormalidade. O prefeito Beto Richa, durante a campanha eleitoral, anunciou ampla revisão no valor das tarifas do transporte urbano. Muitos acreditaram ser uma promessa a mais de quem almejava o Executivo municipal. Outros sentenciavam ser impossível o cumprimento de proposta tão audaciosa. Demonstrando que quando se tem compromisso com a verdade e a seriedade administrativa, foi formado grupo técnico competente e após exaustivos encontros de números e análise de planilhas de custo, chegou-se ao relatório final.
No sexto mês da sua inovadora administração, o prefeito Beto Richa pôde anunciar aos curitibanos a redução da tarifa no transporte urbano. Um ato e um fato do maior valor, não apenas para a bolsa popular, mas principalmente pelo exemplo ético que caracteriza a medida. Compromisso popular assumido é para ser religiosamente cumprido. E são ações desse nível que servem para diferenciar o homem público sério dos energúmenos políticos profissionais que fazem das promessas populistas e irrealizáveis os seus carros-chefes de campanha. A repercussão da objetiva e correta decisão do prefeito Beto Richa não ficou adstrita apenas a Curitiba. Pode e deve ser um caminho a ser perseguido em muitos municípios brasileiros.
Tive o exemplo na semana passada, no Rio de Janeiro. O advogado e procurador da justiça Raimundo Eirado, ex-presidente da UNE em 1960, contemporâneo e amigo de lutas estudantis de José Richa, vibrava com ardor juvenil pela inovadora ação do prefeito curitibano. E o fazia com dupla alegria. Pela medida em si, de grande alcance social. E pela lembrança do saudoso amigo que agora, pela inserção política do filho, enxergava a continuidade de uma coerência genética. Recordava Eirado a firmeza de José Richa, como um dos coordenadores da sua eleição à presidência da UNE. Ao lado do saudoso advogado curitibano José Lamartine Correia. Igualmente, muitos anos depois, quando governador do Paraná, José Richa alargou a participação popular e democrática da sociedade paranaense nas mais importantes decisões de governo.
Caminho agora retomado por essa jovem liderança, que tem origem de fidelidade democrática e herança de dignidade ética. O prefeito Beto Richa não é um aventureiro da política. Veio para ficar. E para escrever na história política um tempo de civilidade e de respeito democrático ao contraditório. Por saber que não é dono de verdades. Mas que persegue a verdade do respeito aos compromissos populares. É do que o Paraná precisa e o futuro haverá de lhe reservar um caminho exitoso ao lado das gerações que sabem que política é o ato nobre de servir ao bem comum.
Hélio Duque é ex-deputado federal.