Ivan Schmidt

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Dos três caminhos abertos aos nossos pés, só um deles havia sido seguido por Saknussemm. Segundo o sábio islandês, esse caminho devia ser reconhecido pela particularidade assinalada no criptograma, de que a sombra do Scartaris acariciava as suas bordas durante os últimos dias do mês de junho. Podia-se considerar esse pico agudo como um imenso mostrador solar, cuja sombra, num determinado momento do dia, marcaria o caminho para o centro da Terra.

Ora, se o sol não aparecesse, não haveria sombra. Conseqüentemente não haveria indicação. Estávamos no dia 25 de junho. Se o céu continuasse encoberto durante seis dias, seria preciso esperar mais um ano. Mas, no domingo, dia 28 de junho, o antepenúltimo dia do mês, com a mudança da lua veio a mudança do tempo. O sol fez incidir os seus raios sobre a cratera. Cada montículo, cada rochedo, cada pedra, cada aspereza foi objeto do seu raio luminoso e projetou instantaneamente a sua sombra sobre o solo. Entre todas as outras, a sombra do Scartaris desenhou-se como uma aresta viva e pôs-se a girar com o astro radioso. Meu tio girava com ela.

Ao meio-dia, a sombra, no seu período mais curto, foi lamber suavemente a beira da chaminé central.

– É aquela! – exclamou o professor. – O caminho para o centro da Terra! (Júlio Verne em Viagem ao centro da Terra, Martin Claret, SP, 2006).

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O que é certo é positivo, o erro é negativo, é simples negação do certo, como o frio é do calor, como a escuridão é negação da luz. Para que uma coisa possa estar errada é preciso que haja alguma outra coisa em relação à qual ela esteja errada, alguma condição não satisfeita, alguma lei violada, algum ser ao qual prejudique. Se não existir esse ser, essa lei ou condição a respeito de que a coisa esteja errada – e, ainda mais especificamente, se em absoluto não existirem seres, leis ou condições – então uma coisa não pode estar errada e, portanto, deve estar certa. Qualquer desvio da normalidade implica numa tendência a voltar a ela. Qualquer diferença do normal, do certo, do justo, pode ser entendida como o resultado de uma dificuldade vencida; e se a força que vence a dificuldade não for infinitamente contínua, a indestrutível tendência ao retorno poderá por fim agir em sua satisfação própria. (Edgar Allan Poe em Eureka, Max Limonad, SP, 1986).

Era noite fechada, mas a floresta interminável que atravessava era iluminada por uma luz difusa, de fonte indefinida, uma iluminação estranha que não produzia sombras. Seu olhar se fixou numa poça rasa, formada por entre os sulcos de velhas rodas, como se produzida por uma chuva recente e que exibia um brilho avermelhado. Parou e nela molhou a mão. As pontas de seus dedos ficaram escuras. Era sangue! E sangue, agora percebia, era o que havia por toda a parte à sua volta. As ervas daninhas que cresciam à beira do caminho tinham as folhas, largas e graúdas, manchadas e respingadas. A poeira assentada entre as marcas de rodas estava encharcada como se banhada por uma chuva vermelha. E os troncos das árvores traziam imensas marcas cor de carmim, enquanto das folhas o sangue pingava como se fosse orvalho. (Ambrose Bierce em Visões da noite, Record, RJ, 1999).

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O tempo é, essencialmente, o mesmo que o espaço, se bem que não exista no mundo de uma dimensão. É também uma relação de magnitudes, mas com referência à duração dos seres, enquanto o espaço não precisa delas para existir. Agora, o raio absolutamente longitudinal do primeiro mundo é eterno como manifestação vital, posto que só pode concluir num estado negativo onde não há espaços nem sequer abstrações: a energia absoluta de onde procede; mas as manchas luminosas do segundo estado de vida podem morrer, ou seja, transformar-se, e aqui já cabe o tempo. (Leopoldo Lugones em As forças estranhas, Landy, SP, 2001).

O propósito da transcrição das elucubrações acima, espero que todos tenham percebido, mesmo escolhidas ao acaso nos livros citados com a intenção de aclarar o modo da construção duma trapaça carregada de genialidade, por outro lado pretende também estabelecer a luminosa identificação da matéria essencial do pensamento desses aclamados criadores de enredos fantásticos da literatura universal. Afinal, uma tessitura enigmática e fantasmagórica que, muitas vezes, leva o leitor à privação momentânea que, no entanto, pode se prolongar indefinidamente, de joeirar o fato da ficção. Aí, o caso requer cuidados bem mais avançados que a filosofia de botequins.

Ivan Schmidt é jornalista.