Um churrasco flexível

?Vocês gostaram do sine qua non?? Não é a primeira vez que o presidente da República pergunta aos jornalistas se gostaram da expressão latina. A blague, feita na última entrevista coletiva, referindo-se ao fato de que a ocupação de cargos pelos partidos não é condição indispensável para a coalizão, é rica em conotações. Expressa o bom humor de quem vive o clímax da vida pública e de um ser que evoluiu como ?uma espécie de metamorfose ambulante?, perfil musicado pelo inesquecível Raul Seixas. A indagação também deu margem à tradicional autolouvação, onde se abriga a série ?nunca antes neste país?. A fala de Lula chamou a atenção não pelos recorrentes arroubos verbais – ?vivemos o melhor momento da economia da história da República? -, mas pela onisciência. Ele disse que está quase chegando ao grau de perfeição. Por isso pode enxergar duas retas se encontrando no infinito. Uma delas é ele mesmo. A outra, seu sucessor. O encontro feliz ocorrerá em 2010. Se tivesse incerteza, poderia imitar os antecessores que, diante de pergunta sobre uma situação tão distante, seguramente diriam: ?O futuro a Deus pertence?. Como Deus e Lula são unha e carne, resta acreditar na bola de cristal lulista.    

Deixemos de lado afirmações erráticas, como a que apontou Oswaldo Cruz – chefe da campanha de vacinação contra a varíola, em 1904 – como o criador do ?remédio? contra a febre amarela, no lugar do sul-africano Max Theiler, que descobriu a vacina só em 1937. E identifiquemos o exagero sobre os êxitos do governo. Todos sabem que há mais desemprego hoje do que nos anos 80s e na primeira metade dos anos 90s, enquanto o crescimento econômico é um dos mais baixos desde a década de 1940. Porém o presidente insiste em carimbar seu governo com o selo do pioneirismo.

É inegável que o País atravessa boa fase na economia e o saldo social permite que o presidente coma pelas bordas a sopa da boa avaliação. O que surpreende é a maneira como Lula antecipa o futuro. Nem bem o segundo mandato teve início e ele se preocupa com o sucessor. Poderá alegar que apenas reage ao interrogatório da imprensa. Mas é exagerada a ênfase que confere à temática político-eleitoral, que ocupou mais de 60% do tempo na coletiva à imprensa.

Vamos ao palavrório. Não pleiteará um terceiro mandato porque é contra a reeleição e a Constituição não permite. E se esta permitisse? E se o povo fosse às ruas, clamando ?Lula outra vez?? Mesmo contra a reeleição, Lula ganhou o segundo mandato porque a Constituição permitiu. A hipótese de a Constituição abrir a permissão, convenhamos, não está totalmente descartada. Se ele assim o desejasse, o Congresso aprovaria. Apostemos, porém, no anúncio de que, em 2010, o candidato lulista ?será tirado de um consenso da base?. A promessa agrada a gregos e troianos. Porque o anúncio faz cócegas em meio mundo. Na esteira da magnanimidade, abre uma janelinha para o PSDB, enquanto espera que o DEM (ex-PFL) seja menos nervoso. Alfinetadas à parte, Lula eleva a auto-estima ao pico da montanha. Quando um governante sugere modos de comportamento à oposição, é porque menospreza sua força. Ademais, o oposicionismo no Brasil perdeu o eixo. No jogo das conveniências, governistas e adversários se acomodam, limitando-se a debater questões tempestivas. Inserir a disputa de 2010 na agenda do momento é uma insanidade. São irreparáveis os danos que a antecipação de um processo eleitoral gera sobre o tecido institucional. Os corpos parlamentares fervilham, os governos das três esferas da federação passam a privilegiar a ação política, em detrimento da visão técnica, e os quadros administrativos são levados a operar sob o lema ?vamos queimar etapas?.

Imagine-se a desconjunção que se verá, a partir do próprio Programa de Aceleração (e bota aceleração nisso) do Crescimento. Some-se a isso a promessa presidencial de ?flexibilizar? as regras de ajuste impostas a governadores e prefeitos, cujo custo seria a quebra do precário equilíbrio fiscal, conseguido a duras penas, na esteira da LRF e da renegociação de dívidas entre estados e Executivo federal. Lula quer fechar a grande aliança com um saco de bondades.

Fechado o pacote de benesses, Lula aprovará facilmente as matérias de interesse do Executivo. As nomeações do segundo escalão desenvolvem-se com lentidão, mas não desestabilizarão a maioria governamental. As oposições, magras e dispersas, se encolherão no ramerrão congressual, onde as pautas são mornas, mesmo as que giram em torno do apagão aéreo. Assim, o onisciente Lula acertará na mosca quando diz que ?muita gente engolirá o que disse do governo?. De bem com a vida, dá-se o direito de puxar a orelha de governantes, condenando quem defende uma nova ?farra do boi? com o alerta: estados não podem se endividar como no passado. Mas, como bom churrasqueiro, sabe que a carne é fraca. Vai direto ao estômago, quando promete fazer um churrasco ?flexibilizado? para os amigos da casa.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político.

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