Ivan Schmidt

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A arte da política, alguns preferem chamá-la de Ciência, constitui um cenário privilegiado, no qual os homens buscam concretizar as suas esperanças. A frase tem algum encanto, mas de nada vale se não for devidamente secundada por atos e decisões que plasmem na consciência da cidadania a convicção de que é dirigida por homens de bem.

Da mesma forma que a religião, ou as religiões (talvez seja mais elucidativo usar o termo no plural), infelizmente, a política tem-se tornado um fértil manancial para o desespero e o fanatismo. Quando não para o burlesco desfile de personalidades dotadas de elevados níveis de excentricidade e esquizoidia, quadro tão freqüente na atualidade brasileira, que ao observador resta apenas concordar, pelo menos em tese, com o bordão superlativo do presidente Lula, ao se referir a determinadas mudanças pirotécnicas propostas por seu governo, enfim, um espetáculo de afirmação cívica e descortino administrativo jamais visto, até então, ?neste País?.

Pois bem. O segundo mandato de Lula mal rompeu a barreira dos 100 dias, período de tempo que nas melhores democracias é concedido ao chefe do governo a fim de que este diga a que veio, já começaram a pipocar nos meios políticos as primeiras especulações quanto à sucessão presidencial. A rigor, um evento que deverá ocorrer somente daqui a três anos e sete meses.

No próximo ano serão realizadas as eleições municipais e, em se tratando de ?ano político? como os círculos especializados convencionaram denominar os períodos eleitorais, mesmo que para alguns resida aí a principal justificativa do lassez-faire, é óbvia a conclusão de que o governo central será forçado e se envolver da cabeça aos pés na disputa, sobretudo nas capitais e municípios de médio e grande porte, mesmo porque a eleição de grande contingente de prefeitos terá extraordinário valor estratégico nas formulações da coalizão governamental em 2010.

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Portanto, alguns meses a menos para dar maior agressividade à execução da agenda de trabalho, de resto, entravada pelos infindáveis liames de uma burocracia só conhecida nos países mais atrasados do planeta, e/ou dificultada pelas ambigüidades que vicejam nos inúmeros estratos político-ideológicos chamados a dar alma a um governo, até aqui, marcado por um pluralismo próximo da inconseqüência.

O panorama será o mesmo em 2010, bem mais abrangente, diga-se de passagem, porque, além do presidente da República, serão também escolhidos os governadores, senadores, deputados federais e estaduais. A julgar pela memória das recentes eleições gerais, não se faz outra coisa no período senão campanha política, mesmo sob o indispensável crivo da legislação específica.

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Assim sendo, o presidente Lula, que não poderá ser candidato a um terceiro mandato, embora seja inconveniente jurar que nenhum remendo imprevisto venha a ser pespegado em nosso mutante arcabouço constitucional, dedicará a maior parte do tempo para trabalhar em prol do candidato presidencial ungido pela coalizão, bem como dos candidatos aos governos estaduais e prefeituras. É impossível conjecturar, àquela altura, em que proporção estará implantado efetivamente o projeto de governo, ao que parece revelado à nação na moldura do bem-intencionado, mas paquidérmico Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Na falta de temas mais palpitantes, os meios políticos discutem a sucessão presidencial com uma antecedência incomum. O Congresso terá nos próximos meses toda a atenção voltada ao andamento das Comissões Parlamentares de Inquérito do Apagão Aéreo, em ambas as casas. Os legatários do pensamento de esquerda na colagem ideológica da coalizão roem-se de despeito ante a virtual supremacia dos conservadores na balança de privilégios. O PT não esconde o jogo e procura se afirmar no comando do bloco que reúne PP, PR e PTB, sonhando com a candidatura presidencial. O PMDB está indiferente e julga ter chegado sua hora de indicar o pretendente.

Mesmo sem dar nomes aos bois, porquanto o contexto assume a expressa imagem da anomia, vale citar o filósofo alemão Novalis: ?Se avistares um gigante, observa a posição do Sol e repara se o gigante não é a sombra de um anão?.

Ivan Schmidt é jornalista.