As falhas do sistema público de segurança e a necessidade de proteção das pessoas e dos bens já vêm transformando as cidades. Hoje, é cada vez mais natural a formação de “bairros cercados” – regiões das grandes cidades repletas de prédios e principalmente de condomínios fechados. Um ao lado do outro, eles mudam a paisagem e deixam os locais cada vez mais impessoais. Afinal, não se vêem mais casas, jardins, quintais, crianças. Nas ruas, vemos muros, portarias, portais. E seguranças particulares.
Para quem não pode se resguardar, resta o risco. E regiões mais pobres sofrem. É o caso do bairro São Braz, em Curitiba, local de trabalhadores, estudantes, famílias humildes e outras nem tanto. Um bairro, na teoria, como qualquer outro da capital do Estado, como de cidades como Londrina, Maringá, Foz do Iguaçu, Cascavel ou Ponta Grossa. Mas o São Braz é diferente. Quer dizer, ficou diferente por causa do crescimento das gangues. O São Braz é um bairro enclausurado.
Duas gangues disputam o poder no local, como contou na edição de ontem da Tribuna do Paraná a jornalista Mara Cornelsen: “Da brincadeira de jovens que se encontravam numa esquina para bater papo, surgiu o Comando do Extermínio (CDE). Do outro lado, apareceu a turma da Vila do Sapo (VDS)”.
O início pueril deu lugar a uma realidade trágica. Famílias perdem seus filhos, inocentes morrem e ninguém sequer pode chorar pelo ente querido. Estudantes não podem mais retornar caminhando para suas casas à noite, sob risco de virarem vítimas da guerra das gangues. As casas (simples, com cadeiras na calçada, como na canção Gente Humilde, de Chico Buarque, Vinícius de Moraes e Garoto) não têm mais vida – as portas e janelas se fecham ao entardecer.
Enquanto isso, os marginais assumem o controle das ruas. Presos são os que não podem viver com tranqüilidade, que sofrem a cada instante que alguém está fora das casas, que suam frio até a chegada dos filhos e netos. Gente que luta pelo emprego e pelo sustento, e que também luta pela vida. É gente humilde, que vontade de chorar.