Um aborígine na Esplanada

É edificante a lição de civismo e renúncia pessoal de personalidades da direita em fazer o sacrifício de integrar o ministério de Lula, em especial para os idiotas latino-americanos que outrora cultivavam copiosas melenas à Fidel e vestiam negras camisetas com a efígie cinematográfica do Che, hoje pouco mais que um rebolativo Rodolfo Valentino da revolução de mentirinha.

Na impossibilidade de contar com Balbinotti, o Breve, escalou-se Reinhold Stephanes para o Ministério da Agricultura, cuja exuberância curricular (ele mesmo o disse) deve ter encantado os apedeutas do gabinete presidencial. Nada demais para um time que tem excesso de jogadores que não perdem o cacoete de atuar pela direita, como Mares Guia, Hélio Costa, Alfredo Nascimento e Silas Rondeau, entre outros. A prova é que o treinador já mandou para o aquecimento o substituto de Luiz Fernando Furlan, no Desenvolvimento, ninguém menos que Miguel Jorge, vice-presidente de assuntos corporativos do Banco Santander, sabidamente um antípoda do chamado materialismo dialético.

Desde a última quarta-feira, Stephanes passou a falar com a autoridade de ministro pré-escolhido, presumindo com invejável autoconfiança que a definição de seu nome teria decorrido da excelente folha de serviços prestados a favor da governabilidade, mesmo em modelitos díspares como os de Fernando Collor e FHC, posto que coincidentes na escorreita conjugação da vulgata neoliberal.

Stephanes está coberto de razão em puxar brasa para o alentado currículo, afinal um orgulho de tantos tecnocratas treinados com dinheiro público. Quanto ao fato de ter-se tornado ministro, quem não gostou e, no ato, consignou a insatisfação da bancada do agronegócio, foi o deputado Abelardo Lupion, autor do até agora irreprochável enquadramento da escolha de Lula: ?Temos um aborígine no Ministério da Agricultura?.

Deve-se salientar que Stephanes tem conquistado seguidos mandatos desde o exercício do cargo de secretário da Agricultura do segundo governo Ney Braga, justificando sua qualidade de proativo quadro recrutado pelo neísmo, a única e mais forte confraria política da história recente do Paraná. Foi nessa condição que exerceu uma secretaria no Ministério da Agricultura, na época em que o morubixaba lapiano avalizava a nomeação de meio governo federal. Foi uma conseqüência lógica sua chegada à superintendência nacional do Inamps, Secretaria da Agricultura e Câmara dos Deputados.

O primeiro mandato de Stephanes se deveu aos fartos dividendos da disseminação das aposentadorias do Funrural, abertura para a chamada do deputado para o posto de ministro da Previdência Social no governo Collor, repetida a dose sob FHC. Sempre como representante do neoliberalismo profligado pelo PFL, úbere que amamentou o espólio da malquista Aliança Renovadora Nacional, arena em que a quantidade de feras acabou encurralando os cristãos-novos numa baia obscura e sem expressão.

Tendo em vista o dinamismo semovente do político brasileiro, essa força telúrica que transforma anões em gigantes, Stephanes trocou o PFL de Lerner pelo PMDB de Requião, mesmo sem registros palpáveis de mudanças em sua forma de pensar do ponto de vista político. E nem é necessário provar, porque tais coisas não soem acontecer num piscar de olhos, e foi para as calendas o péssimo costume das patrulhas ideológicas exercerem a vigilância de janízaros contra o embarque de recém-convertidos nos comboios travestidos em comitês de salvação pública.

Ao fim e ao cabo, a nomeação de Stephanes parece apascentar a angústia de Requião, contraída por suposto empenho de abrir vaga na Câmara para Marcelo Almeida, não por acaso um dos maiores doadores de sua campanha. A hipótese do acordo com Lula quanto à entrega da Agricultura a um paranaense ficou fortalecida. O governador cumpriu a palavra. Espera-se que Marcelo aproveite a oportunidade.

Ivan Schmidt é jornalista.

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