As novas tecnologias de base microeletrônica constituem-se em um potencial de amplas e profundas transformações na sociedade moderna. Trata-se certamente de uma sensível mudança de paradigma tecnológico com profundos impactos sociais, econômicos e culturais.
Este aspecto revolucionário da microeletrônica evidencia-se pelo surgimento de novos produtos e serviços, pela enorme possibilidade de penetração desta nova tecnologia por vários setores econômicos, implicando em alterações significativas nas estruturas de custos e insumos e nas condições de produção e de distribuição de bens e serviços.
As perspectivas que se abrem, para uma sociedade com grandes carências sociais como a brasileira, com a emergência das novas tecnologias digitais (nas quais se incluem a internet e a TV digital, além de uma série de outros equipamentos e dispositivos), são extremamente abrangentes e seus impactos socioeconômicos e culturais são de difícil mensuração.
Dados recentes apontam para a possibilidade de inclusão de uma significativa parcela da população de baixa renda, que ainda permanece à margem da chamada cultura digital. Tal população é estimada em cerca de 149 milhões de brasileiros. A importância que tal fato representa para o futuro da indústria no Brasil, os negócios envolvendo a TV digital correspondem a um montante de aproximadamente US$ 10 bilhões de investimentos dos fabricantes nos próximos dez anos, além de cerca de US$ 1,7 bilhão das emissoras.
Desde os primeiros aparelhos fabricados à base de válvulas nos anos 50s, passando pela revolução dos transistores até chegar aos modelos mais compactos à base dos circuitos integrados (chips de silício), a indústria de televisores constitui-se, de fato, em um exemplar caso de setor inovador e do fenômeno conhecido como o ?processo de destruição criativa?, que para o brilhante economista austríaco Joseph Alois Schumpeter (1883 – 1950) é a essência da dinâmica das modernas economias industrializadas.
Hoje o Brasil se vê diante de um novo salto tecnológico na qualidade da televisão. A televisão digital surgiu na década de 80 com a chamada HDTV (High Definition Television – Televisão de Alta Definição), que começava a ser transmitida no Japão, embora ainda no sistema analógico. No início dos anos 90s, coincidindo com o começo da ?era digital?, japoneses e americanos se interessaram pela transmissão de HDTV no padrão digital, ou seja, a transmissão de televisão via sinais digitais.
A definição de um sistema brasileiro de TV digital, que deverá ocorrer até o início de 2006, representará uma série de impactos em toda a cadeia produtiva da indústria eletrônica, incluindo as empresas produtoras do produto acabado (televisores e equipamentos de recepção e demais acessórios), assim como em toda a cadeia de fornecedores (fabricantes de peças, componentes, equipamentos, instalações e demais insumos, serviços técnicos especializados, como de assistência técnica). Tal fato implicará, também, na necessidades de re-qualificação e treinamento profissional, além de provocar outros tipos de impactos do ponto de vista da pesquisa industrial e do sistema Ciência, Tecnologia e Inovação (C,T&I), como um todo.
A televisão digital surge como uma maneira de incorporar novas tecnologias a uma mídia já consagrada, aumentando a atratividade e o potencial competitivo da televisão, ao oferecer uma melhoria considerável na qualidade da imagem e do som, com a eliminação dos ruídos de sinal, e oferecendo serviços diferenciados como transmissão de vários programas em um só canal, acesso à internet, interatividade e recepção móvel.
João Amato Neto é professor livre-docente do Departamento de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da USP, coordenador do núcleo de pesquisa ?Redes de Cooperação e Gestão do Conhecimento? (www.prd.usp.br/redecoop) e consultor da Fundação Vanzolini.