Hélio Duque
?Creio que não vivi bem o meu papel e me penitencio. Queriam que fosse réu de alta traição? Pois deveria sê-lo, que para isso aqui estamos, sr. Presidente, ao que parece; para divertir a platéia que quer ver sangue. Cansados da faena, há quem grite por las orejas e las patas, como ao fim das corridas de touros. O apoderado já deu suas ordens. A corneta soou, estridente, os toques da luta. A tourada vai acabar. É o minuto da verdade. De suas engalanadas butacas vertem-se clamores e olés salerosos. Salpicam o redondel, onde empalidece a claridade do dia. É uma festa de cor, sr. Presidente, a tourada cívico-patriótica, a fantasmagoria picaresca em que estamos metidos, pálidos de espanto ainda mais do que de apreensão. Temo desapontar os aficionados. E o próprio apoderado não descuide. Se quer ver sangue, desça à arena e enfie no cachaço da besta escura, de um só golpe, um só, não dois, nem três, a sua espada rutilante. Se a besta não entrar em agonia, nem com o chuço dos picadores nem com as farpas dos bandarilheiros, venha ao toureiro que, de peito aberto, se oferece para sacrifício.?
Na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, em 1957, Carlos Lacerda iniciava com essas palavras a sua defesa contra processo de cassação do seu mandato, exigido pelo Ministério da Guerra no governo JK. Durante dez horas sustentou com eloqüência de notável tribuno a farsa de um processo digno das praças de touros de Madri. Cassado o seu mandato, seria entregue à Justiça Militar na condição de traidor da pátria.
Personalidade controvertida, amada e odiada, Carlos Lacerda tinha certeza de que seria cassado, ante a mobilização das forças oficiais, no parlamento e na imprensa. Ao invés de se acovardar em posição defensiva, assumiu o ataque impiedoso aos seus algozes. Era um parlamento integrado, na imensa maioria, por figuras dotadas de sólidas bases culturais. Surpreendentemente a decisão final, no voto, foi pela não aceitação da denúncia. Convertera pela palavra a maioria a rechaçar e derrotar o governo, garantindo as prerrogativas do Legislativo. No plenário o resultado foi 152 contra a cassação, 132 a favor e 13 votos em branco.
Na história política brasileira entre 1945 até 1968, ano da sua cassação, a influência e importância da sua atuação foi marcante. Para o bem e para o mal. E demonstrando que não se precisa de mandatos para fazer política, como acreditam as mentalidades provincianas, Carlos Lacerda só teve um mandato e meio na Câmara dos Deputados. Eleito em 1954 foi reeleito em 1958, renunciando em 1960 ao ser eleito governador do Estado da Guanabara. Decisivo no movimento militar de 1964, depois rompe, é marginalizado, preso e cassado. Articulara a Frente Ampla objetivando a redemocratização. Aproxima-se de Juscelino Kubitschek, no exílio, em Lisboa, e João Goulart, também exilado, em Montevidéu, consolidando o movimento redemocratizador. Os três líderes ?coincidentemente? morreram em um período de 9 meses. JK, em agosto de 1976; Jango, em dezembro de 1976; e Lacerda, em abril de 1977.
Relendo A casa do meu avô, livro memorial despertador das vivências brasileiras da infância em Vassouras à adolescência no Rio, onde Lacerda expressa a arte de bem escrever, motivou-me a publicar esse texto. Nele a figura do seu avô, Sebastião Lacerda, ministro do Supremo Tribunal Federal, emerge como decisiva para a sua formação. Educava-o sobre o valor da palavra escrita e falada. Do pai, Maurício de Lacerda, grande tribuno da revolução de 30, herdou a oratória cultivadora da arte da pregação pública, política e parlamentar.
No jornalismo sua identificação era com Evaristo da Veiga. Ao fundar o jornal Tribuna da Imprensa, nas suas páginas valoriza o espírito combativo e a opinião apaixonada. Morto há 30 anos, aos 63 anos, o seu espírito continua freqüentando a redação da Rua do Lavradio. Nas últimas décadas dirigida por Hélio Fernandes, dos maiores repórteres da imprensa brasileira. Combatendo o bom combate, sempre. A velha Tribuna da Imprensa continua a ser um baluarte do jornalismo de opinião.
Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.