Ivan Schmidt
Estaria alguém incorrendo em erro ou nutrindo pensamento estranho (mas não improvável), ao dizer que a audiência do governador Roberto Requião se restringe aos compenetrados ouvidores da aula semanal da escola de governo? Seria errado supor que a tentativa de se fazer notar mediante a transmissão do referido evento pela TV Educativa (terças, 8 horas, com reprise às 22h30) conta com o beneplácito de admiradores do teatro do absurdo, na mais perfeita acepção concebida por Ionesco, dispostos a dar ouvidos ao chorrilho de diatribes que – estrito senso – o governador tem despejado sobre os meios de comunicação?
Aliás, uma visão medianamente investigativa dessa constância levaria à conclusão de que nem o próprio haverá de estar satisfeito com os maus bofes que tem revelado, ou admitir que exista alguém (a não ser os aduladores que despreza) afim de concordar com as abstrusas demonstrações de virilidade.
Na verdade, faria bem a Requião voltar a freqüentar ambientes e sentimentos mais enobrecedores, como a leitura dos clássicos, por exemplo, de onde sempre se pode tirar algum proveito. Se desse um mergulho nos Ensaios do formidável Michel Eychem de Montaigne, talvez pudesse incorporar – até no sentido místico da palavra – a lição imorredoura: ?Devo um retrato cabal de mim mesmo ao público?. E, se o fizesse de modo consciente, domaria, sem dúvida, a pulsão que o estimula a proferir impropérios contra virtuais adversários, sobretudo os que na sua rasa cartilha contribuíram para estreitar a ínfima diferença que, na apuração dos votos, o separou do senador Osmar Dias.
Poucos duvidam que Requião esteja mesmo falando para os servidores dos escalões superiores do governo e, pior, para massagear um ego altamente suplicante de aplausos. Ao atacar, da forma como o fez na última sessão da escola de governo, instituições importantes no cenário nacional e local, como O Estado de S. Paulo, Gazeta do Povo e Rede Globo de Televisão e, mais grave, impiedosos ataques a pessoas em particular, ressalvados os juízos de valor concernentes a cada cidadão, acima de tudo o governador extrapolou na afronta à sociedade e aos eleitores que, decerto, não lhe deram um salvo-conduto para os transbordamentos trazidos à colação.
Grosso modo, Requião derriçou o conteúdo de reportagens sobre o hipotético déficit financeiro do Paraná, a compra de 22 mil aparelhos de televisão a preço superfaturado, o contencioso com a família Richa e a efêmera fila de caminhões na BR-277, evento transformado por sua hermenêutica insuperável na versão revista e atualizada da histórica Batalha de Itararé. Ora, até os menos aptos meirinhos do Palácio Iguaçu, os que operam na logística da resistência aos ataques da burguesia, saberiam dizer que há caminhos mais apropriados para fazer da informação um direito público. Ao contrário, Requião prefere ser leitor isolado de seu próprio script.
Ganho maior teria em ler Montaigne, que desde o século XVI ilumina com sua sabedoria a aquisição do referencial mínimo para a boa conduta. Anotem a genialidade que deveria ser afixada nos gabinetes governamentais: ?Coisa curiosa: muitas coisas que eu não gostaria de dizer a ninguém, eu as digo ao público; e para meus conhecimentos e pensamentos mais secretos, remeto meus amigos mais fiéis a uma livraria?.
A lição tem mais de quatro séculos, mas permanece íntegra e inserida no contexto, como diria o impagável Stanislaw Ponte Preta. Também nos permite concluir que muitíssimos contemporâneos conquistaram direitos irrevogáveis sobre o legado do pensador francês: ?Exprimo a ignorância de forma pomposa e opulenta, e expresso o conhecimento de forma precária e deplorável?.
Mais que o teor inamistoso das reportagens, afinal, mera contingência no transcurso do gestor sujeito ao crivo da mídia, que deve fiscalizar – sim – a administração pública, assumiu desproporção assustadora a incontinência verbal, aliás, motivo de meticuloso escrutínio nos meios formadores de opinião e, mais, fonte do abatimento de cooperadores que se esmeram em conferir ao governo um traço de urbanidade.
Ivan Schmidt é jornalista.