Na política, a divisão é simples – de um lado, quem está na situação; de outro, quem está na oposição. Claro que há vertentes, ideologias e interesses por toda parte, mas na democracia é fácil saber quem está de qual lado. Quer dizer, deveria ser fácil. No Brasil, ser aliado de um governo não é simplesmente apoiar as iniciativas do Executivo, é ser um depositário da confiança do presidente e, se possível, ter um cargo para si e outros para seus afilhados em escalões menores do poder público.
E caso uma decisão que envolva aumento de poder esteja próxima, logo se vêem as reações iracundas. Quando o então presidente Fernando Henrique Cardoso apoiou Jader Barbalho na eleição para a presidência do Senado Federal, perdeu seu principal aliado, Antônio Carlos Magalhães, que passou a lhe fazer oposição cerrada, inclusive fazendo pesadas acusações de corrupção.
Agora, o senador Tião Viana (PT-AC), até há pouco o candidato ungido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para comandar a Câmara Alta do congresso, está atirando contra ministros por causa da movimentação oficial para indicar o senador José Sarney (PMDB-AP) como candidato de consenso. Viana foi direto ao atacar o ministro das Relações Institucionais, José Múcio, o articulador político do governo federal: “A lealdade dele não atravessa a Praça dos Três Poderes. Ele tem insistido em posições dúbias, tem feito jogo duplo”.
As críticas de Viana, um dos aliados de primeira hora do presidente, e um dos petistas mais respeitados no Congresso, não repercutiram bem. Mostram que há uma disputa de poder entre ministros e partidos, senadores e deputados, para ver quem fica mais perto de Lula, e quem tem mais acesso a verbas que podem fazer a diferença até 2010, quando há eleições gerais. Quando isto acontece, escancaram-se as vísceras do poder, deixando claro para a sociedade que não temos uma visão completa da política parlamentar. Aos nossos olhos, tem profundidade e dialética. Longe deles, é dissimulada e ressentida.