Para os adeptos da institucionalização do cinismo, a luta contra a corrupção não passaria de demonstração farisaica daqueles que defendem um moralismo burguês. Daí, para os seus adeptos, a convivência passiva e tolerante com a corrupção na estrutura pública, em todos os níveis, merecer considerações adjetivas. São profanadores da ética, defendendo acusados em grossas bandalheiras, onde o dinheiro público jorra como poço de petróleo e se incorpora ao patrimônio privado. O assalto de proporções amazônicas agride a sociedade com ramificações poderosas invadindo os poderes republicanos em todos os níveis. Numa cadeia de delitos desmoralizantes e consolidador do verdadeiro crime organizado. A cidadania decente e trabalhadora, ante essa realidade, recebe sucessivas bofetadas na face.
O Banco Mundial vem de oficializar levantamento realizado entre 2002 e 2006, colhendo dados de 30 fontes distintas em 212 países, constatando que a corrupção tem faces diferenciadas. Afirmando: ?O peso da corrupção recai de forma desproporcional sobre as costas de 1 bilhão de pessoas que vivem em extrema pobreza?. Pelas suas estimativas, 1 trilhão de dólares foi gasto com suborno somente em 2006.
Na América Latina, Chile, Costa Rica e Uruguai foram os países que obtiveram os melhores índices no quesito ?controle de corrupção?. O exemplo chileno é admirável. Obteve o índice de 89,8% na guerra contra os corruptos. Maior do que os Estados Unidos, que atingiram 89,3%. Neste item, o Brasil registrou a maior queda. Em 2002, o seu índice era de 60%, em 2006, despencou para 47,1%. O quesito ?controle de corrupção? se refere à medida que o poder público é voltado para o benefício do setor privado. Incluindo grandes e pequenas ações corruptas, bem como a captura do Estado pelos privilegiados do poder e interesses privados.
O fato objetivo atestado pelo Banco Mundial é devastador: no Brasil a corrupção aumentou e ganhou velocidade própria aliada a pouca eficiência governamental e redução da qualidade regulatória. Em relação à eficiência do governo, entre 2002 e 2006, o índice caiu de 55% para 52%. Na qualidade regulatória baixou de 57% para 54,1%. Em dois itens apresentou melhorias. Em ?voz e transparência? o Brasil subiu de 56% para 58,7% e em ?estabilidade política? passou de 41% para 43,3%.
O economista Aart Kraay, coordenador do Grupo de Pesquisas de Desenvolvimento do Banco Mundial, que chefiou a equipe responsável pelo texto final, constatou: ?Medir governabilidade apresenta desafios singulares. A governabilidade é complexa e tem muitos aspectos diferentes. Portanto, nenhum indicador solitário pode capturar totalmente a performance de governabilidade de um país. Por isso, é importante obter dados de fontes disponíveis, como fizemos?.
O oportuno trabalho do Banco Mundial, ao invés de condenação ideologizada, deve servir de alerta para o governo corrigir rumos e estratégias. Governar é tomar decisões e procurar objetivos políticos básicos das sociedades democráticas, impedindo a captura do Estado por grupos poderosos econômicos ou de políticos fisiológicos, como vem ocorrendo no Brasil. A captura do Estado por esses atores se institucionaliza na corrupção consentida.
Governar exige habilidade e competência política para assumir os compromissos necessários à governabilidade, com determinação e coragem. Buscando objetivos nacionais onde desenvolvimento econômico e justiça social são pedras angulares. Ignorando esses parâmetros, curva-se às vontades dos carcomidos ?políticos de negócios? que fazem da atividade pública a busca de compensações e a de ficarem ricos. Ainda agora, no Senado constatou-se que nobres senadores ao invés de compromisso com a ?res publica? (coisa pública), a preferência era pelas ?rês pública?. Os rebanhos bovinos se multiplicam, obrigando um deles a renunciar no início do mandato.
Quando o Banco Mundial oficializou a sua publicação, o Brasil apareceu em incômoda posição no cenário mundial da corrupção. Não precisou de muito aprofundamento, apenas registrou um cenário que traumatiza e envergonha os brasileiros conscientes. Relembrando Martin Luther King: ?O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos sem-caráter, nem dos sem-ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons?.
Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.