Gilberto Gil está cansado. Ele anunciou oficialmente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que não quer mais ser ministro da Cultura. Depois de mais de seis anos no cargo, Gil quer retomar a carreira de cantor e compositor – no que é um dos maiores do País. Ele iniciou uma turnê, que passará por Curitiba nos próximos dias, e segundo Lula “teve uma recaída”. Quer mais tempo para as viagens, quer mais tempo para as parcerias, quer mais tempo para ser o Gilberto Gil.
Tempo rei, ó tempo rei. A decisão de Gilberto Gil poderia ser explicada pelos versos de Tempo rei, uma de suas mais brilhantes letras: “Não me iludo / Tudo permanecerá / Do jeito que tem sido / Transcorrendo / Transformando / Tempo e espaço navegando / Todos os sentidos…”.
Ele sabe que, presente ou não, os rumos da produção cultural brasileira permanecerão os mesmos. Os incentivos à Cultura, reformulados no governo Fernando Henrique Cardoso, foram aperfeiçoados por Lula e Gil amparados por brilhantes assessores do ministério. O cantor, ora ministro, fez o que se deve fazer: cercou-se de profissionais de alta qualidade e fez o Ministério da Cultura tocar seu rumo. Até um momento em que se poderia prescindir do próprio titular da pasta.
Gilberto Gil não era mais necessário no organograma do ministério. Ele era uma figura decorativa – e não há nada demais nisso. Por algum tempo, apenas a presença do cantor já seria suficiente para demarcar território importante. Afinal, quem poderia discutir sobre a cultura brasileira com um de seus representantes mais importantes? Gil foi importante na Esplanada dos Ministérios.
Mas, hoje, Gilberto Gil é importante nos palcos, onde ele sempre brilhou. Lula sabe disso, e não impôs dificuldades para a saída do cantor do Ministério da Cultura. Sabe que pode contar com Gil sempre que preciso, inclusive para voltar a ser ministro. Só que agora é hora de deixar o artista voar – afinal, esse tempo (rei?) não tem rédea, vem nas asas do vento.