Ivan Schmidt
Apesar das pesquisas e estudos já realizados e, de outro lado, dos programas multilaterais ou dos governos, e até da existência de um elo da Organização das Nações Unidas, a FAO, que se dedica inteiramente à formulação de projetos para o desenvolvimento da produção de alimentos nas regiões mais necessitadas do mundo, o problema da fome prossegue desafiando a capacidade investigativa dos cientistas e a vontade política dos governantes.
Barrington Moore Jr., professor da Universidade de Harvard, escreveu um livro sobre o tema (Reflexões sobre as causas da miséria humana, Zahar Editores, 1974), ao qual é importante voltar para concluir que as conclusões mais instigantes, apesar do longo tempo decorrido desde a publicação, não foram sequer arranhadas pelo cabedal de conhecimento e soluções que os gestores públicos, por delegação popular, adquiriram a obrigatoriedade de encaminhar.
Moore enfatizou, há três décadas, que o planeta tinha gente em demasia e que uma enorme parcela desse contingente estava verdadeiramente faminta, ?particularmente, mas não exclusivamente, nas áreas economicamente atrasadas?. O professor tinha idéia firmada sobre o outro lado: ?Nas áreas avançadas, temos uma tecnologia que é utilizada para destruir outros povos. Em seus outros usos, a tecnologia torna a vida mais agradável e confortável, conquanto torne o planeta inapto para a vida humana. É uma combinação que sugere que o Homo sapiens está perto do fim de seu ciclo evolutivo e condenado à extinção?.
O professor tinha elementos para descrer da eficácia dos chamados milagres tecnológicos com os quais a ciência acenava, simplesmente bordejando as taxas de crescimento populacional que, então, se delineavam. Sem as veleidades do humanismo e sem ater-se ao terreno do politicamente correto, Moore alegava que o apregoado bem-estar talvez fosse possível mediante uma ?catastrófica redução da população?, ocasionada por uma guerra nuclear ou por algum outro acidente técnico.
A aparente crueldade da análise foi, contudo, amenizada nos seguintes termos: ?Mas tal catástrofe teria maiores probabilidades de destruir as bases técnicas e culturais que fizeram semelhante objetivo possível, mesmo que não destruísse todas as formas de vida do planeta. Como qualquer um com um mínimo de leitura a respeito desses assuntos sabe, o problema da superpopulação difere agudamente nas partes do mundo economicamente avançadas e nas economicamente atrasadas. Nas últimas, é principalmente uma questão de fome. O que parece o problema mais simples e objetivo de todos aparece aos olhos de muitas autoridades sensatas como o mais delicado?.
Os índices de miséria que afligem dois terços da população planetária dão inteira razão ao professor de Harvard, que já discorria sobre a superalimentação e desperdício em algumas partes do mundo e a inanição que vitimava milhões de crianças em outras áreas. No Brasil contemporâneo, as linhas gerais do pensamento de Moore alcançaram nos primeiros cinco anos do novo século disposição rigorosamente afinada com a realidade. De um lado temos um mercado ávido e com suporte econômico para adquirir todas as novidades tecnológicas, desfrutando de um padrão de vida altamente sofisticado, ao passo que, do outro, postam-se seres humanos engajados na aventura de sobreviver com a ínfima quantia de um dólar por dia.
Não é por acaso que no ranking mundial da distribuição de renda, o Brasil só é superado por Serra Leoa, um país (?) perdido nos confins da África, no qual os abusos desumanos da exploração levaram a população a experimentar na carne os efeitos da miséria.
Seria esta a exata dimensão das modernas sociedades industriais? Contribuir para a expansão de incalculáveis fortunas pré-existentes e abrir caminho para os novos ricos, conquanto não trouxessem ameaças à hegemonia da elite do capital? São perguntas ainda sem resposta, mesmo com todo o avanço qualitativo da pesquisa em ciências políticas e sociais. Muitos dos que tentaram (e tentam) formular respostas plausíveis, são identificados como românticos, símbolos redivivos daquele desengonçado cavaleiro que pervagava a Mancha à procura dum moinho para acutilar com sua lança torta.
Moore acertou ao revelar que o capitalismo gerou a democracia predatória, posto que tivesse alertado para os inevitáveis resultados de desagregação, fome, revolta e banhos de sangue.
Ivan Schmidt é jornalista.