A semana começa com a grata notícia de que o Brasil não é mais o líder do ranking mundial dos maiores juros reais, graças ao corte de um ponto percentual na taxa básica Selic, reduzida para 10,25% ao ano. A decisão unânime do Conselho de Política Monetária (Copom), do Banco Central, fez com que o juro básico da economia brasileira atingisse o menor nível de sua história. A decisão foi anunciada na última quarta-feira, 29, dentro do escopo de “ampliar o processo de distensão monetária”. A expectativa é que o Copom faça novo corte da taxa Selic na reunião marcada para o mês de junho. Esse foi o terceiro corte consecutivo desde a adoção da política do juro básico em base anual, no encerramento do exercício de 1997. Dois anos depois, em março de 1999, os juros da economia brasileira chegariam a exorbitantes 45% anuais, puxados pela maxidesvalorização do real em janeiro.
Há muito tempo se esperava a decisão de retirar do Brasil a discriminatória pecha de praticar o maior juro real em escala planetária, descontada a inflação projetada para os doze meses seguintes. Aliás, sobre esse aspecto o ex-ministro da Fazenda, Delfim Netto, ao que se sabe um dos íntimos conselheiros econômicos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, no dia seguinte ao anúncio do Banco Central, afirmava que “essa coisa de o sujeito dizer que vai ter inflação em 2012 é ridícula. Não existe política monetária científica. Isso é falsa ciência e tem um custo enorme”.
O ex-ministro, é óbvio, destoa da expectativa favorável do mercado, que contava com a variável de um corte ainda mais representativo. Delfim reiterou, em tom incisivo, que somente o Banco Central “leva a sério o mercado”, apontando nessa dependência um processo incestuoso: “Esse tal mercado controla o Banco Central. O Banco Central não controla coisa alguma. Essa história de que o Banco Central controla as expectativas inflacionárias é o maior blefe que nós temos hoje”.
Os analistas, porém, construíram suas projeções com base na recuperação visível do cenário econômico após as primeiras turbulências e sobre a melhoria geral dos indicadores, que propiciam as condições essenciais para desafogar o gargalo monetário. A avaliação favorável do mercado também se escora em evidências recentes de que o comércio prossegue com a demanda aquecida graças ao consumo decorrente da massa salarial. A desoneração da carga tributária e a eliminação gradual de barreiras que limitavam o acesso ao crédito para a compra de bens duráveis, também servem para reforçar a tese de que a diminuição dos estoques terá resultado imediato no aumento do ritmo da produção industrial.
Os sinais de melhora da economia brasileira, sem dúvida, são reais e levam muitos a admitir que ainda esse ano a população terá motivos para saudar a inteira retomada das atividades que sofreram com o impacto da crise financeira mundial. Há duas semanas o governo anunciou a redução da meta do superávit primário de 3,8% para 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB) de 2009, com o objetivo de somar-se ao esforço estrutural de combate à crise. Destarte, o governo terá à disposição um adicional de R$ 40 bilhões na soma de recursos destinados a dinamizar os investimentos em infraestrutura e programas sociais, entre outros projetos.
Um gesto afirmativo veio do sistema bancário nacional em respaldo à decisão do Copom. Os maiores bancos também vão reduzir as taxas de juros para pessoas físicas e jurídicas. Os cortes vão de 0,05 a 0,63 ponto percentual, passando a valer já no começo da semana entrante. A maior redução será a do Banco do Brasil, na linha de financiamento de eletrodomésticos/linha branca, caindo a taxa mínima de 2,62% para 1,99% ao mês. Os índices de redução dos juros ainda são extremamente modestos, mas a tendência é que continuem caindo. Afinal, Delfim apregoa que o Brasil deve aproveitar a oportunidade e abandonar a teratologia de ter a maior taxa de juros do mundo: “A taxa de juros real será aqui da ordem de 3% ao ano, como no mundo inteiro”.