Há no ar, muitos objetos voadores não identificados além de empenados urubus e aviões de carreira, como diria Aparício Torelli, o impagável Barão de Itararé, sempre que pretendia carregar nas cores dos constantes achaques sofridos pela República Velha. A sagacidade mordaz daquele que foi um dos precursores do jornalismo de humor no País estaria tão evidente hoje quanto no apogeu do irreverente jornal A manha, cujo título deixava suficientemente clara aos leitores a linha editorial adotada. Nosso atual cenário político, entremeado de lances burlescos e trampolinagens de toda sorte, coroado pela inevitável repercussão do grampo telefônico sofrido pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, haveria de fornecer ao Barão de Itararé – assim como oferece aos chargistas e humoristas contemporâneos – um vasto manancial de inspiração.
No auge da ebulição, assoma ao picadeiro com a desenvoltura peculiar a figura do ministro da Justiça, Tarso Genro, brandindo a proposta de punições drásticas aos servidores públicos pilhados em ações ilegais, tais como a escuta clandestina de conversas telefônicas de terceiros. Genro defende que o castigo imposto aos praticantes do grave desvio funcional inclua a perda do emprego, processo criminal, ação de improbidade administrativa e até a suspensão dos direitos políticos. Caso a sugestão do ministro da Justiça ganhe curso, a assepsia pretendida no serviço público brasileiro será algo sem precedentes na história, levando-se em conta que cerca de meio milhão de patrícios tiveram seus telefones grampeados nos últimos tempos. O risco é a extinção do setor de informações por falta de pessoal.
A bem da verdade, a manifestação do ministro procede porquanto os primeiros indícios do grampo no telefone do presidente do STF, apontam na direção dos integrantes da Polícia Federal e da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) envolvidos na Operação Satiagraha da Polícia Federal (PF), que culminou com a prisão de Daniel Dantas, Naji Nahas e Celso Pitta, soltos pouco tempo depois por força de habeas corpus concedidos pelo ministro Gilmar Mendes. A hipótese não descartada por alguns policiais federais foi transmitida pelo senador Demóstenes Torres (DEM-GO) após depoimento à PF que iniciou a investigação do caso. O senador foi convidado a depor na condição de interlocutor de Mendes na conversa gravada ilegalmente no dia 15 de julho passado. Poucos dias antes o ministro autorizara a soltura dos presos pela Satiagraha, e a transcrição da conversa foi entregue a repórteres da revista Veja (que a publicou), por um indiscreto araponga da própria Abin.
Um dos suspeitos da autoria intelectual do grampo, o banqueiro Daniel Dantas, na avaliação do delegado Paulo Lacerda, afastado temporariamente da direção geral da Abin, não merece a nova acusação, embora o policial não tenha revelado os argumentos que lhe reforçam a convicção. Por sua vez, injuriados agentes da PF repudiaram mediante uma nota pública os ataques à corporação e à Agência Brasileira de Inteligência, enfatizando que interceptações telefônicas somente são realizadas com autorização judicial e vinculadas a inquéritos policiais.
Não bastasse o clima de aparente rancor entre instituições do aparelho de Estado, o ministro Gilmar Mendes acrescentou uma pincelada a um quadro já sombrio em demasia. Ele está preocupado com uma espécie de consórcio formado por juízes e delegados que no futuro poderia assumir a configuração de “milícia” a fim de desferir ataques contra a Justiça. Mendes adiantou que alguns juízes consorciados a delegados já exercem o papel de polícia na instrução do inquérito e até no direcionamento da coleta de provas, afastando-se da missão de julgar. As inquietações do presidente do STF foram reveladas a um grupo de parlamentares no encontro reservado em que Mendes foi convidado a falar à CPI dos Grampos. A aceitação do convite depende da consulta que o presidente fará aos demais ministros da Suprema Corte. A República vive momentos de suspense e emoção política.