O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, apesar das evidências em contrário encimadas pela estrondosa vitória de Gilberto Kassab (DEM) sobre Marta Suplicy na cidade que tem o maior colégio eleitoral do País, não vê razões para admitir o tropeço eleitoral do Partido dos Trabalhadores (PT). Em contrapartida e, sem ao menos deixar a pelota quicar por alguns segundos, o presidente de honra do Democratas, ex-senador Jorge Bornhausen (SC), declarou que “2010 começa hoje”. Não há reparos, portanto, à assertiva de que a sucessão de Lula está nas ruas (a eleição só vai ocorrer dentro de dois anos), assim como é impossível esconder a antecipação de um debate político que deveria aguardar a época apropriada, até para não tisnar o restante do atual mandato com os tons esmaecidos duma pintura que perdeu o viço original.

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Nas hostes do petismo não há como deixar de lamentar a segunda derrota consecutiva sofrida na cidade de São Paulo, pela mesma candidata, embora os assessores mais próximos tenham semeado a divisa de sair em campo por sua volta à Esplanada dos Ministérios, com a finalidade de fortalecer uma hipotética candidatura ao governo do estado em 2010. Com a derrota de Marta por 1,3 milhão de votos, dessa vez soterrada por uma diferença de quase 800 mil votos em relação a 2004, quando perdeu para José Serra por pouco mais de 500 mil votos, o sonho pode durar pouco. Alguns políticos importantes do PT em São Paulo decerto vão reivindicar, com bons argumentos, um espaço privilegiado na linha de frente. A referência óbvia engloba necessariamente o senador Aloizio Mercadante (também derrotado por Serra na eleição para o governo estadual), o deputado Arlindo Quinaglia, presidente da Câmara dos Deputados e o ex-presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e ex-ministro do Trabalho, Luiz Marinho, ratificado no segundo turno para o cargo de prefeito de São Bernardo do Campo, importante município do ABC paulista e berço político do presidente Lula.

A eleição de domingo, ao lado de vitoriosos como os tucanos José Serra (SP) e Aécio Neves (MG), governador Sérgio Cabral Filho (RJ) e ministro Geddel Vieira Lima (BA), ambos peemedebistas, que tiveram a felicidade de eleger seus candidatos nas três capitais mais importantes e em Salvador, por outro lado deu destaque para a galeria dos derrotados ilustres: senador José Sarney que perdeu feio na capitania hereditária de São Luís; deputado Jader Barbalho, cujo candidato também foi preterido em Belém do Pará e o herdeiro presuntivo do carlismo, deputado ACM Neto, que sequer conseguiu passar para o segundo turno na disputa pela prefeitura de Salvador. A primeira e indiscutível lição a extrair desses fracassos é que os eleitores não mais se permitem ludibriar pelo insosso discurso da demagogia e do atraso.

Contudo, sem a menor sombra de dúvida, o exemplo emblemático da sapiência adquirida pelos eleitores na tarefa de separar a palha do trigo foi dado ao Brasil em Curitiba, onde o candidato imposto pelo governador Roberto Requião ao PMDB, ex-reitor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Carlos Augusto Moreira Junior, sabidamente um homem de excelentes serviços prestados à saúde e à educação, viu-se constrangido a se cobrir com os andrajos da mais humilhante derrota dentre todas as registradas nas eleições desse ano.

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O quadro para 2010, não seria de outra forma, vai sendo assumido pelos personagens em evidência. A ministra Dilma Rousseff é a candidata preferida do presidente Lula, que espera ver aceita pela base partidária a tese da candidatura única. O PMDB, no entanto, dono do maior número de prefeituras, contando seis capitais e grande número de municípios importantes terá cacife para bancar candidato próprio, se não prevalecer o que analistas identificam como inclinação para o exercício de papéis secundários em troca de um punhado de cargos de alto coturno na administração. Os vencedores Sérgio Cabral Filho no Rio e Geddel Vieira Lima na Bahia podem falar alto, sugerindo o posto mais elevado na chapa da base. Aos tucanos, resta resolver a questiúncula entre Serra e Aécio pela indicação. A briga é boa.