Sobre trambiques no futebol e na Copa

Quase todos os jornalistas de futebol (existem poucos esportivos) no Brasil, principalmente aqueles dos grandes centros, conhecem as falcatruas e armações políticas e financeiras que existem no futebol brasileiro. Alguns denunciaram essas mutretas nos últimos 25 anos. Mas ninguém conseguiu colocar uma ou outra matéria mais consistente, a fim de movimentar a opinião pública, por absoluta falta de provas. Jornalistas não têm obrigação de levantar provas incontestáveis. Existem órgãos especializados para isso. Jornalistas denunciam, alertam, informam, interpretam e opinam sobre os acontecimentos que envolvam pessoas públicas e suas atividades.

A exceção, em termos de esporte no Brasil, aconteceu há 25 anos. Nessa época, o repórter Sérgio Martins, que trabalhava para a revista Placar, ficou um ano e meio investigando uma denúncia sobre as fraudes na loteria esportiva. A loteria esportiva era um grande negócio e todo mundo gostava de escolher seus 13 times para o final de semana.

Como a loteria esportiva foi um sucesso nos anos 70, vários tipos poderosos e ricos, mas suspeitos e protegidos pelos militares, resolveram meter mão nesse jogo, lesar o povão, modificar resultados de partidas, enfim, fraudar o negócio. A revista Placar publicou então uma série de matérias a respeito. Foi um escândalo abafado. O público até ficou chocado por um instante, mas os formadores de opinião, a mídia e outras pessoas no comando não se interessaram pelo caso porque o poder era dos militares e a liberdade de expressão e a justiça social eram sonhos muito distantes.

Portanto, nada de concreto aconteceu. O governo não apurou os fatos. O Ministério Público da época era pífio, a polícia sumiu, a revista Placar, que era bem conceituada, entrou num processo de decadência irreversível.

O auge dos marqueteiros e da picaretagem no futebol chega nessa Copa de 2006. O importante não é competir, como disse Pierre de Coubertin. O importante é mostrar o logotipo do patrocinador, já disse Millôr Fernandes. A Nike, que soube como ninguém elevar o Ronaldo a níveis superiores ao Pelé e o Maradona, não é patrocinadora da Copa do Mundo. Ela não aparece na mídia, afinal a Adidas é o material esportivo oficial da Copa.

Mas a maior jogada da Copa da Alemanha foi realizada durante o jogo Brasil e Nova Zelândia. Não foi uma brilhante jogada. Nem um gol de placa. Foram as bolhas no pé do Ronaldo. Ao afirmar que a chuteira lhe causou problemas, ele trouxe atenção do mundo inteiro para o produto.

Não é um marketing negativo. Pelo contrário, a bolha no pé do craque da seleção roubou a cena. A Nike faturou milhões em exposição. A chuteira de Ronaldo virou o centro das atenções. Técnicos da Nike foram à Alemanha para resolver o problema das ?bolhas? nos pés de Ronaldo.

Pelé e outros grandes craques nunca reclamaram de bolhas. Ele jogava com chuteira de couro grosso, travas batidas a prego e depois com pesadas solas de borracha.

O Ronaldo, pesadão, e a Nike, precisaram de bolhas para aparecer e atrair os repórteres, todos escravos da CBF. A Nike foi notícia em todos os jornais, rádios e TVs do mundo. A marca da empresa patrocinadora de Ronaldo apareceu em fotos e imagens. Os comentários eram sobre as ?bolhas?. Discutiu-se filosofia sobre bolhas. Foi a primeira vez na história do futebol mundial que bolhas foram tão importantes.

Agora, os técnicos do Ronaldo vão resolver o problema da chuteira. E mostrar que possuem alta tecnologia. E vender muitos produtos. E o mundo das câmeras e dos trouxas só vão olhar para os pés do Ronaldo e o logotipo da Nike. A copa virou um negócio com pouco futebol e muita logomarca.

Alex Gutenberg é jornalista.

Siga a Tribuna no Google, e acompanhe as últimas notícias de Curitiba e região!
Seguir no Google