Quem quiser compreender o Brasil tem acesso a dois compêndios. O primeiro é o Livro dos grandes feitos, de autoria do governo, com o titulo ?Nunca na história deste País?, com conclusões do tipo: bancos nunca ganharam tanto dinheiro; 8 milhões de pobres foram promovidos da classe D para a classe C; dois milhões de carros já foram vendidos em 2007; nossa economia não pega mais resfriado com espirros internacionais; risco Brasil alcança o mais baixo patamar histórico; reservas brasileiras chegaram ao topo; País lidera tecnologia do etanol, o combustível do futuro; nunca os pobres viram tanto pão sobre a mesa. O segundo é o Tratado das coisas escamoteadas pelo governo, com capítulos de escândalos, denúncias e grandes carências. Por conseguinte, passar os olhos pela história recente do País exige muita acuidade. Há curvas de um lado e de outro. Ao observador desatento, cabe filtrar o ufanismo exagerado ou aparar o catastrofismo exacerbado.
O exercício deve começar pela compreensão da alma presidencial. Luiz Inácio, longe do sufoco dos aeroportos, trafega pelo mundo a bordo de um avião de última geração, perorando sobre o ?socorro à pobreza?. Ou, para usar a expressão de Fernanda Montenegro (O Estado/4/11/2007), ?é o homem mais feliz deste País porque conseguiu o impossível. Ele vive seu milagre em total arrebatamento?. Sob esse fundo psicológico, não é de admirar que debite o apagão no ar, que continua a atormentar milhares de brasileiros, à maldade da mídia. Ou que imagine o ministro Nelson Jobim, pomposo nas fardas de camuflagem, como a turbina para colocar avião no ar. Mera ilusão. O ex-presidente do STF mais parece um super-Boeing que parou no meio da pista por falta de gasolina. Há nele muito verbo para pouco resultado. A tormenta provocada pela paralisação de mais uma companhia de aviação, às vésperas do final de ano, é sinal de que Papai Noel chegará às festas atrasado e irritado. Na falta de avião, decidirá viajar por terra, mas a buraqueira na malha rodoviária roubar-lhe-á o sorriso para brindar a criançada.
Lula passou pelos buracos nos tempos das Caravanas da Cidadania, quando conheceu os grotões. A Confederação Nacional do Transporte acaba de divulgar que 73,9% das estradas brasileiras têm problemas. O péssimo estado de conservação e a ausência de investimentos na malha provocam perdas de até R$ 20 bilhões ao ano para a economia. Só com o transporte de cargas, as perdas somam R$ 7,5 bilhões. Mortos e feridos em acidentes nas estradas brasileiras ultrapassam os números das guerras internacionais. O calculo é este: para cada real investido em estradas, 3 reais são poupados de usuários com a manutenção dos veículos. O nonsense, porém, decide colocar no lugar desta equação a montanha dos R$ 40 bilhões da CPMF. Os recursos que poderiam ser alcançados com a arrumação da gestão pública seriam superiores aos abocanhados do bolso dos consumidores. Mas a pauta de tributos é intocável. Afinal, dela se extraem recompensas para financiar a corte palaciana. A contribuição idealizada para salvar a saúde continuará alimentando as saúvas do solo político. E a regar o fundo que garante a manutenção do mais populista programa de distribuição de peixes do mundo, criticado porque transforma famintos em acomodados. Prefeitos nordestinos desfilam indignação ante a recusa de trabalhadores para fazer limpeza das ruas.
Nada disso, porém, parece incomodar o presidente. Que flutua acima do apagão aéreo e se distancia do buracão rodoviário. Sem esquecer que há, ainda, um atrasão portuário. Há 54 portos no País e nenhum pode ser comparado a similares internacionais. O custo de movimentação de um contêiner em Antuérpia, na Bélgica, é metade do cobrado por aqui. Burocracia, falta de dragagem, precariedade no acesso terrestre, superposição de competências estão entre os problemas dos usuários de portos. Inexiste, por outro lado, legislação para os cruzeiros de cabotagem marítima, quando esse potencial, bem usado, multiplicaria da noite para o dia as divisas turísticas. Para complicar, especialistas projetam um apagão de energia em 2010. O aumento da população, o desenvolvimento tecnológico e o desenvolvimento industrial puxariam a demanda para 59,2 gigawatts médios, enquanto a oferta seria de 58,2 GW, ou seja, 1,2% menor. De onde Lula puxará mais energia? Na infra-estrutura social, a saúde continua doente, quase na UTI. A segurança é uma calamidade. O ministro da Educação diz abertamente que o ensino médio vive crise aguda. Sob o tapume, há uma banda do Brasil que se tenta esconder. Só não vê quem não quer.
Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político.