Sereia do Leme

Era um outro Rio. A largura da Avenida Atlântica era de uma ?lagartixa?. Transformou-se em ?jacaré? a partir de 1971, quando, por obra de aterro do mar executado por técnicos portugueses, ampliou a sua dimensão sendo a realidade que se vê e convive na atualidade. Era um Rio onde a ?guerra civil urbana? ainda não havia sido declarada. Era um Rio onde a grande ameaça era outra. O receio era decorrente das conspirações políticas, em uma época de profundas divergências ideológicas. O medo era das ameaças golpistas: a Vila Militar vai descer e depor o governo.

Nesse Rio que já não existe mais, o viver a vida era formidável e a harmonia criativa da inteligência militante fazia escola para todo o Brasil. Na imprensa escrita tinha nove jornais importantes. O Jornal do Brasil, Correio da Manhã, Diário de Notícias, Última Hora, O Globo, Tribuna da Imprensa, Diário Carioca, O Dia e A Luta Democrática. Exatamente nessa ordem de importância e de influência na vida nacional. Hoje, existem três jornais importantes e com capacitação crítica e influência real muito limitadas em termos de País.

À época os grandes debates das questões nacionais se expressavam nas páginas da imprensa carioca. E também as tertúlias literárias, intelectuais e até arrivistas. Viver o Rio era viver a vida independente de valores econômicos ou financeiros. Os valores eram outros, predominava o talento, a inteligência.

A decadência do Rio se inicia a partir de 1964, quando a alegria de viver foi substituída pelo medo, delação e mediocridade triunfante. Quando da invasão do apartamento do escritor Ferreira Gullar, no Leblon, comandada pelo capitão Guimarães (o mesmo contraventor e monopolizador das escolas de samba na atualidade) fez uma notável apreensão. Era uma pasta com artigos sobre arte e cultura e na capa tinha o título: ?Do cubismo ao neo-concretismo?. O truculento militar acreditava que eram textos sobre a revolução cubana.

Nesse ambiente asfixiante, a criatividade foi obrigada a ancorar em outros portos. Bares e restaurantes passaram a ser motivo de disputa. No Jornal do Brasil, José Carlos de Oliveira escrevia uma crônica diária, sobre o cotidiano carioca. No Correio da Manhã, a crônica em dias alternados era feita por Carlos Heitor Cony e Fernando Leite Mendes. Nas sextas-feiras, a crônica de Fernando chamava-se por título ?sexta-estórias?. Em uma delas, sobre um bar-restaurante no Leme, tinha por título ?Sereia do Leme?. Era um boteco-restaurante que passou a motivar uma disputa epistolar com José Carlos de Oliveira, patrono do restaurante ?La Fiorentina? (existente até hoje no Leme).

Em 1965, vivendo em Copacabana, na Rua Julio de Castilho, no posto 6, em um fim de semana fui aperitivar e jantar no ?Sereia do Leme?. Dentre outros amigos, Sebastião Nery, Hermano Alves, Helio Oliveira (editorialista do Correio da Manhã) e Fabiano Vilanova. O ?Sereia do Leme? havia entrado no cenário dos importantes pontos de encontro do Rio, graças às crônicas do Fernando Leite Mendes, também presente à nossa mesa.

Nessa mesma noite, adentra o salão uma figura deslumbrante. Era a atriz tunisiana-italiana Claudia Cardinale, que estava no Rio, hospedada no hotel Leme-Palace, uma quadra acima do ?Sereia? e que resolvera conhecer o badalado ?point?. À época foi a mais bela mulher que já havia visto. A atriz estava rodando um filme no Rio. O dono do restaurante a encaminhou e o seu grupo a uma mesa ao lado da nossa. Não deixando de apresentá-la ao colunista Leite Mendes. Ágil e oportuno, Sebastião Nery fez, na ocasião, monumental entrevista publicada no Correio da Manhã. Muitos anos depois, adido cultural do Brasil na Itália, Nery a reencontra e tornaram-se grandes amigos. Recordava o Rio maravilhoso que conhecera.

São reminiscências de um Rio que não existe mais. Hoje predomina o alpinismo social e o arrivismo de um lado, e do outro a violência de uma guerra civil não declarada. Os bandidos estão se adonando da cidade. Recentemente o jornal O Globo publicava pesquisa onde dois terços dos seus habitantes confessavam o desejo de mudar de cidade, se tivessem condições profissionais. Isso antes da explosão organizada de violência bandida que amedrontou São Paulo e expôs a fragilidade dos grandes centros urbanos. O medo passou a ser componente do cotidiano dos brasileiros. É preciso enfrentar essa realidade com pulso firme e mão de ferro, enquanto é tempo.

Hélio Duque é doutor em Ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.

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