Ser seguro ou ter segurança? O fim da dicotomia

Ser ou ter? Esses dois pequenos verbos sempre desafiaram a nós, pais, responsáveis pela formação do caráter de crianças e adolescentes. Com o apoio dos educadores, que sempre nos auxiliam na orientação dos nossos filhos, buscamos valorizar o ?ser? em cada conselho e orientação dada. Mas, na prática, muitas vezes mostramos com os nossos atos e exemplos a força do ?ter? em nossa sociedade.

Essa dicotomia existe porque insistimos em dissociar uma coisa da outra. Não temos que nos preocupar em ser ou em ter. Temos, sim, que ser e ter. Ser honesto e ter caráter. Ser humilde e ter autoridade. Ser bem-sucedido e ter valores. Os dois verbos se complementam, mas a maioria das pessoas insiste em separá-los, comprometendo o que são e o que têm.

Essa questão é tão profunda que afeta a percepção pública de áreas importantes para a nossa sobrevivência. A segurança pública é um bom exemplo disso. Há muito se discute se o problema da violência nas grandes cidades é de natureza policial ou social. Da mesma forma, os entes públicos tratam de empurrar o problema uns para os outros. Com isso, a população acaba tecendo uma discussão improdutiva sobre de quem é a responsabilidade pela segurança pública, se da União, do Estado ou do Município.

O melhor é suprimir a palavra ?ou? dessa discussão. O problema da violência é de natureza policial e social e a responsabilidade pela segurança do cidadão é dos gestores públicos municipais, estaduais e federais. Trata-se de uma importante mudança de paradigma que começa a ser feita pelo Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania do governo federal, lançado mês passado pelo presidente Lula. Pela primeira vez, um projeto de segurança pública substituiu os ?ous? pelos ?es?.

O Pronasci é um conjunto de 94 diferentes projetos nos quais serão investidos R$ 6,7 bilhões até 2012. Esses projetos atuam de forma integrada em diferentes áreas vitais para a segurança pública, envolvendo questões de formação e valorização dos policiais, passando por questões habitacionais e de lazer de populações vulneráveis, ampliação dos serviços da Defensoria Pública, recuperação da população carcerária e atendimento à família.

A proposta é tão inovadora que muita gente não consegue visualizar seu alcance e seus efeitos. Viemos de uma cultura da repressão e do policiamento ostensivo. Partimos, agora, para uma cultura de apoio, recuperação e promoção. Deixamos o distanciamento entre o que é policial do que é social. Vamos dar melhores condições para que o policial exerça suas funções, mas também vamos promover melhores oportunidades de vida para os jovens, que são as principais vítimas da violência urbana.

Enfim, vamos escrever uma nova história no Brasil. A violência é hoje o principal problema das grandes cidades brasileiras. A população clama por segurança. As respostas começam a ser dadas, não com distribuição de tarefas, mas com união das forças públicas e privadas em torno de um único objetivo, que é de responsabilidade de todos.

Gleisi Hoffmann é advogada, gestora pública e militante do PT.

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