Ariane Holzbach
Olhe bem para si e responda: você é um ser humano? Tem certeza? Sinto lhe dizer, mas sua noção de humanidade, que provavelmente o acompanha desde que entrou no jardim de infância, pode estar completamente errada. Isto porque vivemos num País onde certos absurdos persistem tanto que nos fazem ter dúvida sobre nossa humilde -embora onerosa – condição humana.
Para explicar, vamos começar com algo ?leve?. Se você está precisando comprar calcinhas (pode ser para sua esposa, ora!), que tal escolher um modelo De Millus? Belos, exclusivos e caros, não? Pois você sabia que esta respeitada empresa carrega nas costas processos na Justiça por revistar seus cerca de dois mil funcionários de forma desumana? Em 1989, a empresa mandava as pessoas ficarem nuas, a cada mudança de turno, para ver se elas não haviam furtado nada. E agora, como se fosse pouco, a De Millus resolveu, em pleno século 21, atacar as pessoas que têm algum tipo de deficiência física. Ela entrou na Justiça para recuperar o dinheiro do vale-transporte dado aos deficientes que trabalham na empresa. A alegação diz que o processo foi aberto porque essas pessoas já têm gratuidade nos ônibus, como se isso acontecesse sempre (infelizmente, muitos motoristas inescrupulosos descumprem a lei) e como se não existissem kombis e vans que por vezes fazem sozinhas determinados trajetos. Pelo menos dessa vez a justiça foi feita e o TRT negou o pedido – e ainda mandou a empresa pagar R$ 2,2 mil pelo ?constrangimento a uma funcionária?, de acordo com um grande jornal.
Agora vamos mais fundo. No Recife, um psicólogo é acusado de escravizar estagiários numa rádio AM feita para graduandos da Universidade Federal de Pernambuco, a Rádio Universitária. De acordos com alunos que o denunciaram ao reitor da universidade, que já abriu inquérito administrativo, o ?profissional?, que é diretor de programação da emissora, transformou o local de aprendizado num campo de concentração, perseguindo, gritando, xingando, agredindo e massacrando os estudantes. Ele (que dúvida…) nega as acusações e chegou a pedir que seus ex-alunos desmentissem o fato na frente dele, mas os universitários, ao contrário, reforçaram todas as acusações.
Agora vem mais uma bomba de efeito moral, humano e demais substantivos referentes a mim e a você. Uma das maiores empresas de telefonia móvel do País inventou uma maneira prática, econômica, confiável e superbarata de otimizar o trabalho de seus funcionários, evitando que eles gastem o precioso tempo de produção com bobagens como, vejam só, ir ao banheiro. A Claro simplesmente decidiu impor um limite de cinco minutos por dia para que os trabalhadores de seu centro de atendimento em Goiás fossem ao sanitário.
Cinco minutos por dia para fazer necessidades no banheiro! É tanto tempo que, se o fecho da calça emperrar, se a mulher estiver com cólicas, se o homem precisar fazer mais que um simples xixi, se a jovem precisar alongar os braços por trabalhar demais e se o jovem chegou de um temporal e precisar trocar de camisa, vai-se pelo menos o dobro desse tempo… E haja descontos no salário no fim do mês.
Este caso, claro, causou muita polêmica e já foi parar na Justiça, embora esteja sem solução definitiva. A Justiça Trabalhista de Goiás decidiu, em primeira instância, que o ato é ilegal. Como punição, a operadora terá que recolher R$ 500 mil ao Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) por dano moral coletivo e pagar multa diária de R$ 500 se descumprir a determinação. É bom lembrar, contudo, que a decisão ainda está em primeira instância.
Não é preciso ser gênio para perceber que os atos descritos vão muito além da falta de respeito com o funcionário. Nem cachorros, cavalos, vacas ou papagaios têm o tempo de fazer necessidades controlado pelos donos. E nem cachorros, cavalos, vacas e papagaios são xingados, agredidos e massacrados sem que o agressor sofra a devida punição (isto, claro, se o fato chegar ao conhecimento público).
A vontade de produzir sempre mais e angariar lucros cada vez mais exorbitantes estão fazendo com que muitas empresas retrocedam à era da Revolução Industrial, quando o pobre trabalhador praticamente dormia no serviço e não tinha nenhum tipo de direito – mas milhões de deveres. Esses atos, por sinal, não diferem muito dos casos de escravidão coletiva a que muitas pessoas são acometidas em lugares distantes do País. A diferença é que estes, quando descobertos, são amplamente denunciados pela mídia, forçando uma reação por parte das forças competentes.
Se continuarmos assim, num futuro muito próximo, muitos chefes vão começar a controlar o número de grãos de arroz que comemos no almoço, a quantidade de vezes que beijamos nossos parceiros e, claro, o quanto gastamos todo mês. Tudo para gerar o óbvio: mais, mais, mais e mais riquezas, sempre. É preciso ter cuidado.
Ariane Holzbach é jornalista no Rio de Janeiro. E-mail arianediniz@uol.com.br