Ivan Schmidt

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Não poderia ter sido mais canhestra a forma com que o grupo cada vez mais reduzido de dirigentes do PMDB estadual conduziu os entendimentos em torno da construção de uma aliança suficientemente forte para enfrentar as várias nuanças do pleito de outubro. Com a decisão de não lançar candidato próprio à Presidência da República, enfiada goela abaixo dos partidários da tese sob o argumento de facilitar acordos informais nos estados para garantir a eleição de grande número de governadores, além de expressivas bancadas nas assembléias legislativas e no Congresso Nacional, a ala governista se adonou da palavra final e o PMDB (ou parte dele) engajou-se informalmente à campanha de reeleição do presidente Lula.

Num sinal eloqüente de como estão antagônicas as coisas no PMDB, o presidente da legenda, deputado Michel Temer (SP) tornou pública a decisão de apoiar o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin.

Essa autêntica ópera bufa transformou o partido numa espécie de terra de ninguém, tendo em vista que a informalidade das alianças regionais proposta pelos donatários das capitanias hereditárias escancarou a possibilidade dos entendimentos mais esdrúxulos e oportunistas, selados com a exclusiva preocupação de não perder de uma vez tanto os dedos quanto os anéis. Assim, nos estados onde o PMDB tem chances reais de eleger o governador, a saída foi buscar o respaldo eleitoral melhor adaptado às circunstâncias de momento, mesmo que em muitos casos tenha se exposto ao ridículo de coligar-se a grêmios que lhe fizeram furibunda oposição.

No Paraná, temos o exemplo clássico da nova hermenêutica peemedebista, adubada pela vocação para o mando de uma falange do PSDB, cuja convenção regional findou por aprovar o apoio informal à campanha do governador Roberto Requião, pela exígua vantagem de cinco votos. Segundo os planos, o deputado Hermas Brandão, presidente da Assembléia Legislativa e mentor da proposta, entraria na chapa na condição de candidato a vice-governador, acatando-se a preferência do diretório nacional pela candidatura do senador Alvaro Dias à reeleição. Como o PMDB tem na pessoa do vice-governador Orlando Pessuti um cordato e leal regra três, que até hoje não assumiu o cargo de conselheiro do Tribunal de Contas para o qual foi aprovado pela Assembléia Legislativa, se o casório informal com o PSDB não se consumar (a querela está no Tribunal Regional Eleitoral), repete-se a dupla de 2002.

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Essa visão pragmática da questão acabou gerando um prejuízo de monta para o PMDB, devido ao tratamento leviano atribuído à definição do candidato do partido ao Senado da República. Havia forte tendência para a indicação do ex-governador Paulo Pimentel, entretanto, represada pelo viés dicotômico do partido entre PT e PSDB, ambos com candidatos a senador escolhidos em convenção. Ao passo que o PMDB augura a adesão do tucanato à reeleição do governador, foge como o vampiro de uma réstia de alho a quaisquer achegas com o senador Alvaro Dias e, muito menos, com Geraldo Alckmin. Pelas artes da prestidigitação do sedimento petista do PMDB insuflou-se o comitê suprapartidário Lula-Requião, apesar das brigas homéricas entre o governador e dirigentes do PT estadual. E para os intérpretes da sinuosa cabala que enche o eleitor de desconfiança, a ordem é trabalhar pela eleição da candidata petista Gleisi Hoffmann.

O que menos se esperava veio a se consubstanciar no pedido de desligamento do ex-governador Paulo Pimentel do PMDB, convencido de ter concluído sua missão na vida partidária. Gesto emblemático de uma visão altruísta hoje absolutamente estranha ao ambiente político, caracterizado em grande medida pelo servilismo desbragado, pela bajulação em troca de miudezas e pelo patológico comportamento de transformar bordoadas em afagos.

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Para o PMDB, carente de políticos conseqüentes e referências morais num deserto de homens e idéias, como dizia Oswaldo Aranha, no mínimo, o desembarque de Pimentel é o sinal de que o partido perdeu por completo o senso da realidade.

Ivan Schmidt é jornalista.