Até a década de 1960 – ainda no tempo ingênuo e improvisado da TV brasileira – eram raríssimos os programas que abordavam temas sensacionalistas.
Sempre houve público para eles, mas existia um certo comedimento dos apresentadores e pudor – dissimulado ou não – de quem assistia. Além disso, as emissoras ofereciam programações musicais, novelas, teatro, humor, jornalismo e uma série de outros itens – quase todos ao vivo – que permitiam alternativas culturais atraentes.
O tempo passou e os meios de comunicação evoluíram tecnologicamente, mas o que se vê nas programações da maioria das emissoras de TV é semelhante ao que se ouve nas rádios: muita sofisticação nos equipamentos, mas baixíssima qualidade no que reproduzem.
Apesar da grande variedade de emissoras, são poucas as opções de programação. E quase todas dispõem de, no mínimo, uma versão de programas considerados sensacionalistas. Neles, pessoas aparentemente comuns ?aceitam? expor seus problemas e mazelas. Mas o que se vê é a exploração, sem limites, de temas complexos – tratados de forma vulgar, sem ser didática – e a sujeição de seres humanos a situações vexatórias, que têm como clímax – ansiosamente aguardado – ofensas e agressões. Seria risível, se não fosse grotesco e desumano.
As produções se aproveitam da fragilidade moral ou financeira de indivíduos; ou criam situações fictícias – armações e ciladas -, para explorar, com baixo custo – e nível -, o desespero, de uns, ou o anseio, de outros, pelos 15 minutos de fama – não importa se boa ou má – profetizados por Andy Warhol.
O curioso é que a maioria dos espectadores desse tipo de programa espera exatamente isso. Torcem para que ocorram deslizes morais e atos de violência. Parece haver um prazer mórbido em assistir à degradação humana… Tanto que, quando isso não ocorre, a reação é de frustração e, até, inconformismo. Nem os apresentadores a escondem.
De quem é a culpa? Das pessoas que ?aceitam? participar, dos ?âncoras-malas? que os apresentam, das equipes de produção, dos patrocinadores ou da direção das emissoras? Não! É, apenas e tão-somente, de quem assiste.
Quem acompanha uma novela ou série sabe, teoricamente, que aquilo é ficção. Mas quem assiste programas sensacionalistas – principalmente os que falam de traições, dolos e ?pegadinhas? de mau-gosto – acreditam que aquele ?espetáculo? de mau-caráter ou ridículo dos outros é real. Talvez pense que está imune e acima dessa condição… Mas, na verdade, só está exercitando o voyeurismo que, de certa forma, expressa desejos ocultos. Ao desejar que o pior aconteça, não está sendo melhor que os ?protagonistas? da encenação. Na verdade, torna-se cúmplice, travestido de juiz.
É… A sociedade de consumo também consome gente.
Além disso, é praticamente impossível acreditar na veracidade do que é mostrado por uma razão bastante simples e prática: a forma como as pessoas são expostas e, no limite, agredidas, é material mais do que suficiente para embasar processos por danos morais ou físicos, com indenizações vultosas, muito superiores a qualquer cachê ou doação pseudo-humanitária. Não faltariam advogados dispostos a prestar seus serviços para tanto.
Tudo, portanto, sugere um provável embuste, baseado nos piores instintos humanos de quem produz ou consome. É sensacionalismo barato, que se nutre da pobreza de espírito – e a estimula -, mas que tem um custo moral exorbitante.
Adilson Luiz Gonçalves é engenheiro, professor universitário e poeta.
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