Gaudêncio Torquato
Srs. parlamentares, o eleitor acaba de dar mais uma demonstração de maturidade. Tirou das mãos de Luiz Inácio uma vitória que se anunciava como certa no primeiro turno, para lhe garantir a maior votação da história do Brasil, numa segunda rodada, como se pretendesse com isso puxar as orelhas do candidato arrogante, auto-suficiente nas convicções e impassível diante das denúncias que envolveram seu partido e seu entorno. A ?dádiva de Deus? que o presidente reeleito enxergou no segundo turno (banhando-se na crença de que ?Deus é brasileiro?) foi, na verdade, uma prova de que o eleitor rejeita pratos prontos do menu político e, ainda, a demonstração de que, na esfera política, a menor distância entre dois pontos nem sempre é uma reta, como ensina a geometria euclidiana, mas uma curva nos termos propostos por Einstein quando explicou que o universo não é plano. A referência poderá ajudá-los, srs. deputados, a melhorar o desempenho após o período turvo que abrigou a ?pior legislatura? do ciclo pós-redemocratização.
A reta e a curva têm muito que ver com a atitude na vida pública. Nem sempre os melhores caminhos da política são os mais curtos ou os mais fáceis. A crise que convulsionou o sistema parlamentar derivou da facilidade com que o poder executivo cooptou parlamentares na boca do varejão. O caminho escolhido foi a reta dos recursos ?extrafolha?. Por serem distribuídos de forma desigual entre pares, os pagamentos abriram as denúncias. Desta forma, a imagem de v. exas. foi estraçalhada. Poucas exceções se desviaram da lama. Não pensem, porém, que sua eleição zera as contas com o povo. Nenhum esforço parlamentar terá sentido se não for pautado pela intenção de restaurar a dignidade do Congresso. Um deputado quando abdica da identidade, pela subserviência total ao poder executivo, macula o lugar que habita. Não é preciso ocupar todos os dias a tribuna para deixar de ser baixo clero. Não é necessário produzir em massa projetos de lei para ser reconhecido. Basta cumprir fielmente as funções constitucionais.
Há, como se sabe, distorções no processo eleitoral. Nossa democracia abriga mazelas que mancham algumas de suas virtudes. Por isso, no mapa da representação eleita se vê que certos perfis já começam a desonrar o mandato. Sob a democracia, os melhores têm vez, mas calhordas também proliferam. A cada eleição, porém, é arquivada uma banda da velha política. Nos últimos tempos, pela lupa da mídia, as impurezas sobem à superfície. Eis um sinal de alerta, srs. parlamentares. Reflitam sobre a mais premente reforma que o país está a aguardar: a mudança nos costumes políticos.
Srs. parlamentares da oposição, não façam política com o fígado. O fel que jorra na ressaca da derrota turva as cabeças e não serve à democracia. A força do oposicionismo se alimenta do poder das idéias. Preparem uma agenda para a nação. Definam um calendário para as reformas política, tributária, sindical, trabalhista e previdenciária. Conclamem a base governista para a arena de lutas, mas usando as armas do debate franco. Cobrem a apuração de denúncias, sem fazer da tribuna palco para desfile de egos. Lembrem ao presidente da República e aos integrantes do governo respeito às regras do jogo, cumprimento rígido das promessas de campanha, mais ação e menos discurso. Reciclem-se. Avaliem as condições de seus partidos. Querem ser organizações de massa, partidos de quadros, partidos de grupos ou amontoados da classificação ?catch-call parties? (partidos do agarra-tudo)? Onde se inserem no arco ideológico? Que base mínima de crenças pode ser construída neste momento em que o país quer enterrar a crise moral que solapa as instituições?
Srs. parlamentares da situação, não sejam cordeirinhos de presépio. Pelo fato de pertencerem à base governista, evitem ser polichinelos e mercadores do mandato. Lembrem-se da lição de Djalma Marinho (UDN-RN) quando, nos idos de 1968, desafiando o império da ditadura, rejeitou pedido de cassação do deputado Márcio Moreira Alves, inspirado no espanhol Pedro Calderón de la Barca: ?Ao rei (Costa e Silva), tudo, menos a honra?. A mediocracia dos venais não pode vencer a aristocracia do mérito. Querem resgatar a imagem? Não se considerem extensões do executivo. Não receiem defender o ideário democrático, assentado nas liberdades, nos direitos e deveres dos cidadãos. Não endossem discursos de mentes retrógradas, esses que defendem a expansão do tamanho do Estado e a mordaça na mídia – sob o sutil conceito de ?democratização dos meios de comunicação?. A situação não tem o direito de abocanhar o orçamento. A meta é fazer o Brasil crescer 5% do PIB em 2007? Façam o possível para isso.
E entendam o recado final das urnas. A sociedade concedeu a Lula a chance de ajustar as linhas do primeiro mandato. O que não quer dizer que tenha passado uma borracha nas manchas sobre a administração. Elegeu novos representantes. O que não significa que deixará de acompanhar a atividade de v. exas. Nas entrelinhas se lê o brado do profeta Zaratustra: ?Cansei-me das velhas línguas. Não quer mais o meu espírito caminhar com solas gastas?.
Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político.