O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, mesmo com o acúmulo de lances agourentos originários da crise financeira do mercado norte-americano, é um esforçado apóstolo da cruzada que procura instilar tranqüilidade nos empresários brasileiros. Ao participar da 20.ª Reunião do Fórum Nacional da Indústria, promovido esta semana pela Confederação Nacional das Indústrias (CNI), o economista ratificou a crença na firmeza dos indicadores econômicos do País, afirmando que o Produto Interno Bruto (PIB) de 2009 tem tudo para crescer à taxa de 4%.
Quanto à oferta de fundos para financiar projetos de expansão industrial, mesmo diante de um cenário que indica a probabilidade de retração na oferta internacional de crédito, Coutinho asseverou que o BNDES tem liquidez e, “na medida do possível, vai suprir parte das necessidades para manter o investimento em curso”. Ao longo desse ano, o banco deverá somar desembolsos no valor de R$ 85 bilhões, sendo que toda a programação está devidamente consolidada. Os bons ventos que sopram sobre o BNDES, segundo o presidente Luciano Coutinho, são também favoráveis à empresa brasileira, porquanto haverá recursos suficientes para suprir a demanda de crédito durante o primeiro semestre do exercício vindouro. O lastro da visão otimista de Coutinho é o empréstimo de R$ 15 bilhões que a instituição acabou de contratar com o Tesouro Nacional.
Assim sendo, mesmo com o alastramento da crise que ameaça romper a capacidade de controle das autoridades econômicas do governo dos Estados Unidos, ainda dependentes da aprovação do pacote de emergência de US$ 700 bilhões pelo Congresso, o BNDES além de possuir recursos para a concessão de crédito no primeiro semestre de 2009, já se movimenta para equacionar o problema nos seis meses seguintes. Coutinho disse ainda aos representantes do setor industrial reunidos na sede da Associação Brasileira da Infra-estrutura e das Indústrias de Base (Abdib), que “algumas fontes complementares de recursos” estão sendo prospectadas, embora não tivesse fornecido detalhes antecipados das negociações em curso.
O otimismo do governo, fortemente impregnado nos pronunciamentos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do ministro da Fazenda, Guido Mantega, e de Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, não é partilhado integralmente por alguns líderes empresariais participantes do evento promovido pela CNI. As lideranças começam a perceber certa dificuldade na obtenção de crédito. O próprio presidente da CNI, deputado federal Armando Monteiro Neto (PTB-PE), assinalou que “empresas médias e até mesmo algumas de grande porte enfrentam dificuldades para renovar linhas externas”, acrescentando que também as empresas voltadas para as exportações já se ressentem do encolhimento atual. Monteiro ressaltou que “o papel do BNDES vai ser fundamental para a sustentação da taxa de investimento no Brasil”.
A posição de cautela exposta pelo presidente da Confederação Nacional da Indústria, Armando Monteiro Neto, está estribada em razões pragmáticas, tendo em vista que além de todos os motivos que levam o empresariado a confiar na ação do BNDES, não é possível imaginar que a instituição por “si mesma possa prover todos os recursos necessários ao financiamento da economia brasileira”. Contudo, a mensagem de Coutinho ao mercado é que “os investimentos continuarão fluindo e continuarão a receber o apoio do banco”. Está descartado, na visão do presidente do BNDES, o cenário “em que empresários que baterem à porta do banco possam ficar sem recursos, devido ao impacto externo sobre o crédito”.
Coutinho adiantou, ainda, que o ciclo de investimentos estimula o crescimento da economia e mesmo com uma pequena retração dos 6% atuais, “não vejo por que a taxa tenha que cair para 3% no ano que vem”. O santo padroeiro do BNDES é forte.