Estabelecer prioridades, num país com forte demanda em todos os setores, é uma tarefa hercúlea para qualquer governante.
Para Washington Luís (presidente do Brasil de 1926-30) ?governar é abrir estradas?. Juscelino Kubitschek (de 1956-61) com seu ímpeto desenvolvimentista, apregoava ?50 anos de progresso em 5 de governo?. ?Tudo pelo social? era o bordão de José Sarney (de 1985-90).
Três presidentes marcaram a sua gestão pelo combate à inflação: Wenceslau Brás (de 1914-18), Castello Branco (de 1964-67) e Fernando Henrique Cardoso (de 1995-2002). É possível que o ministro Antônio Palocci faça com que Lula integre esta honrosa lista.
Com prevalência na ortodoxia monetária – sem congelamentos, pajelanças – Pedro Malan e Antônio Palocci merecem um lugar de destaque no panteão da pátria. Envoltos por políticos em sua maioria míopes e reivindicadores, foram alvos da incompreensão, isolamento e agressões. Com determinação, equilíbrio, serenidade, espírito de equipe, conduziram as metas fiscais por trilhas pedregosas para fazer frente aos fortes solavancos da ilógica economia brasileira, a economia ?do enfarte e da loucura?, que se contrapõe à da oferta e da procura.
Fernando Henrique Cardoso, que ocupou a pasta antes da presidência, se faz oportuno: ?Políticos e empresários pensam que o Ministério da Fazenda é um pátio dos milagres. Enganam-se: é um vale de lágrimas. Eles entram chorando, mas eu choro mais do que eles?. Mais hilária é a tirada do prof. Gama e Silva: ?No fim do dia, um ministro da Fazenda precisa de uma dose de bom uísque e de um adulador contumaz ao lado?.
Pândegas à parte, na macroeconomia são indispensáveis resultados positivos quando se almeja justiça social e desenvolvimento sustentável de médio e longo prazo. Em contrapartida, não há como negar o sacrifício que está sendo imposto às empresas (elevada carga tributária) e às populações de média e baixa renda (falta de emprego e perda do poder aquisitivo).
Há muitos políticos e até empresários que advogam um pequeno aumento da inflação para que haja a retomada do crescimento. É um grande risco para uma economia com forte tendência a recaídas. Uma analogia etílica é pertinente: após um período de abstinência, permita a um ex-alcoólatra algumas pequenas doses… Ninguém segura mais!
Austeridade fiscal para manter a sanidade da moeda: eis a receita imprescindível, porém amarga para o mandato de um governante. Este conforta-se com o dever cumprido e com o julgamento da posteridade. Sim, a história – essa ?juíza imparcial? – repara injustiças, mas tem o péssimo hábito de andar tão devagar que raramente alcança em vida esses devotados estadistas.
O controle inflacionário é uma condição necessária, embora não suficiente, para a promoção da cidadania e manutenção do poder de compra da população menos esclarecida e mais carente. Nos 25 anos que precederam o Plano Real, houve um verdadeiro massacre social consentido: inflação de quase um quatrilhão por cento. E os mais pobres, não tendo conta em banco, não podiam usufruir dos benefícios da correção monetária. A estes, desumana e iníqua é a perda do poder aquisitivo dos salários.
O Brasil não é um país pobre e sim injusto. Fruto da incúria administrativa e do descontrole dos gastos públicos, merecemos mais uma taça, só que uma taça de chumbo: somos o segundo país em desigualdade social (só perdemos para Serra Leoa, na África). Parafraseando Dante, os piores lugares do inferno deveriam ser reservados aos governantes populistas e gastadores, pois geram miséria e infelicitam uma nação. Aristóteles já advertia que ?a demagogia é a perversão da democracia?.
Frente à grave crise política que estamos vivenciando, há dois perigos: 1.º) medidas demagógicas por parte do governo que venham vitimar a estabilidade econômica; 2.º) o canto da sereia levar um candidato populista à Presidência da República em 2006.
Os nossos sacrossantos fundamentos econômicos e democráticos estão passando por uma prova de fogo. Mas cremos que o Brasil sairá desta crise mais fortalecido. São dores do ritual de passagem para a maioridade.
Jacir J. Venturi, diretor de escola, professor da UFPR, da PUCPR. Cidadão Honorário de Curitiba. Autor dos livros Álgebra Vetorial e Geometria Analítica e Cônicas e Quádricas.
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