O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu a taxa Selic em 1,5 ponto percentual e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve ontem em Washington para conversar com o colega Barack Obama. O assunto, como se sabe, foi a crise financeira iniciada em setembro passado com a quebra do banco de investimentos Lehman Brothers, cujos respingos de chuva ácida continuam apavorando os governantes ao redor do planeta, ao mesmo tempo que encarecem o açodamento dos arautos que se aventuraram a afirmar que tamanho estardalhaço não iria além de uma mansa marolinha.
É cedo para conjecturar sobre o resultado das conversas entre líderes mundiais, assim como no caso brasileiro, contar com efeitos imediatos da redução da taxa Selic que sequer chegou a ser processada de modo conveniente. Lembremos que no mesmo dia a nação curtiu a insatisfação de ouvir a revelação do desabamento de 3,6% do Produto Interno Bruto (PIB), no último trimestre do ano passado. Essa, segundo os analistas, foi a maior queda registrada desde o início da série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 1996. Obviamente, um reflexo da capacidade de corrosão da crise internacional que quebrou bancos, restringiu o crédito para investimentos na indústria, eliminou empregos e arrochou os níveis de consumo familiar.
A corrente de más notícias acaba de receber mais um elo. A poderosa corporação industrial do estado de São Paulo acumulou no período de outubro a fevereiro a demissão de 236,5 mil trabalhadores. Em fevereiro a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) contabilizou a demissão de mais 43 mil operários. Nos anos de 2007 e 2008 o número de trabalhadores dispensados chegou a 35,5 mil e 38 mil, respectivamente. O total de empregos atuais na indústria paulista é de 2,35 milhões, em relação aos 2,58 milhões de empregados registrados em outubro, quando o rastilho de pólvora foi aceso e causou a explosão da bolha imobiliária nos Estados Unidos, projetando uma crise de liquidez logo disseminada pelo mundo.
O diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da instituição, Paulo Francini, comentou que esta foi a maior queda dos últimos treze anos: “Foi o terceiro mês com recorde negativo, e sabe Deus quantos vamos assistir em razão da crise”. Dito de outra forma, a situação fica mais amarga quando se sabe que o acumulado de demissões entre outubro e fevereiro representa 10% do total de empregos da indústria paulista. Esse número é bastante superior à soma de vagas abertas em 2004, ano em que o setor industrial do referido estado criou 145 mil novos empregos.
No período de outubro a fevereiro verifica-se uma queda já tradicional do número de empregos industriais em São Paulo, em função do término da colheita de cana-de-açúcar, cujos empregados fazem parte da base industrial, tendo em vista que os contratos de trabalho são realizados pelas usinas. Apesar do panorama aziago, Francini acenou com a probabilidade da volta à estabilidade do saldo de criação de empregos a partir desse mês. Na última quinzena, os empresários monitorados pelo indicador Sensor, da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, manifestaram a tendência de melhoria gradativa da expectativa quanto à contratação de novos empregados, investimentos, vendas e mercado, em cotejo com o mesmo período do mês de fevereiro.
A recuperação das vagas perdidas até agora, entretanto, será lenta. Esta é a opinião de Júlio Gomes de Almeida, professor da Universidade de Campinas (Unicamp), para quem há sinais que apontam para a recomposição do cenário avariado, embora seja muito difícil imaginar que tal realidade venha a sofrer alterações de monta no curto prazo. Não há o que discutir, porquanto o ritmo da retomada industrial ainda é extremamente moderado. Os setores mais afetados pelo desemprego foram os de equipamentos de transporte aeronáutico e ferroviário, responsáveis pelo corte de 22% das vagas em fevereiro (9.565 postos de trabalho), dentre os quais se destacam as emblemáticas 4,2 mil demissões na Embraer, localizada em São José dos Campos. Quase 240 mil trabalhadores se debatem com a incerteza do futuro.