Tarcísio Vanderlinde

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O agronegócio é um dos assuntos que no momento mais criam controvérsias. Dependendo do interesse, muitas vezes os dados são distorcidos ou omitidos. A palavra que deveria se relacionar a qualquer negócio ligado à produção primária, dependendo do grupo de agricultores que a utiliza pode ter sentido ambíguo.

Para os defensores da agroecologia e da agricultura familiar, via de regra, o agronegócio tornou-se um palavrão e identifica-se com um cultivo monocultor, especulativo e predatório em grandes propriedades com graves impactos socioeconômicos e ambientais. Neste caso, seriam nas novas fronteiras do agronegócio que a natureza estaria sendo mais desrespeitada, quando ali também não ocorre trabalho escravo.

 Nesta crise, megaprodutores e grandes conglomerados agrícolas procuram arrastar junto médios e pequenos produtores. Não é raro se deparar com pequenos agricultores reproduzindo discursos dos grandes investidores do agronegócio.

O discurso mais freqüente utilizado por gregos e troianos é o da ?produção de alimento?. Em parte é verdade, em parte não. Vive-se de fato uma crise de superprodução e o ?alimento? do qual tanto se fala é predominantemente a soja, que na alimentação direta da população tem usos restritos ou indiretos. Quando vai para a exportação o uso poderá ser ainda menos nobre.

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Mas existem outros cultivos monocultores que também apresentam problemas. De qualquer forma, a soja, vedete emblemática da crise, após ter granjeado o status de commodity trouxe para a propriedade do agricultor toda a complexidade das ?regras? do mercado internacional. Neste caso, o governo pode até ter algum tipo de responsabilidade, mas certamente o furo da bala é mais embaixo.

Existem diversos fatores conjunturais associados à crise. A valorização do real seria um deles. Mas o assunto é mais complexo. Seduzidos pelos grandes agronegócios e pela expectativa do ganho fácil, muitos agricultores já sabiam que poderia haver algum risco na atividade, porém acharam que daria para ganhar um bom dinheirinho antes de sobrar soja. Há cerca de três anos este escritor conversava com um motivado jovem agricultor do oeste do Paraná de mudança para a Bahia. Lembro muito bem o que ele falou: ?Também vou plantar soja, só ainda não sei quem é que vai comer tanta soja?.

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O geógrafo Ariovaldo Umbelino de Oliveira, professor titular da USP e grande conhecedor das problemáticas relacionadas ao uso da terra no Brasil, observa que ?a volúpia dos que seguem o agronegócio vai deixando o País vulnerável no que se refere à soberania alimentar?. Acho que dá para entender bem sobre qual agronegócio Ariovaldo se refere.

A legitimidade das reivindicações e as políticas emergenciais que virão a ser implementadas a partir deste momento não deveriam se sobrepor a uma procedente reflexão sobre o assunto. Fica evidente que o modelo econômico que sustenta o mercado de commodities é predatório e leva ao tipo de situação que se está presenciando. As leis que regem o ?livre mercado?, com tantos defensores no Brasil, podem se revelar perversas e destrutivas. Os protagonistas da crise que o digam.

O físico Fritjof Capra, que não é agricultor, mas se notabilizou mundialmente por defender uma economia mais solidária e sustentável, não poupa palavras ao dizer que a proposta de mercado vinculado à economia global encontra-se em rota de colisão com um projeto universal mais sustentável.

 De acordo com o ativista, o grande desafio do século XXI é o da mudança do sistema de valores que está por trás da economia global, de modo a torná-lo compatível com as exigências da dignidade humana e da sustentabilidade ecológica. Este seria um momento precioso para se pensar no assunto.

Tarcísio Vanderlinde é professor da Unioeste, no Campus de Marechal Cândido Rondon.