Rivalidade inexplicável

Como se não bastassem as crises que vivem assolando a América Latina, os latinos assistem, agora, a mais um capítulo da enrolada rivalidade entre brasileiros e argentinos. Desta vez, os amantes de Maradona acusam os aficionados por Pelé de quererem ser ?donos? da América Latina. Mas, afinal, de quem é a culpa?

?Claro que é dos brasileiros, que se metem em tudo que não lhes diz respeito no cenário internacional?, respondem os argentinos. ?Claro que é dos argentinos, que se sentem desprezados por perderem importância perante o mundo e sentem inveja de nós?, rechaçam os brasileiros. É difícil entender de onde vem essa rivalidade entre países vizinhos que, além de nunca terem sido inimigos declarados, têm muitas similaridades culturais. Mas um ponto pode ser destacado: falta amadurecimento diplomático tanto do lado verde e amarelo quanto do azul e branco.

Do lado de lá, além da clara resignação contra os avanços diplomáticos brasileiros (que o diga a secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice, que veio para cá e nem pisou em solo argentino), sabe-se que o presidente Néstor Kirchner adora causar polêmica para aumentar sua popularidade. Ora, pensou ele, num momento em que os ânimos estão acirrados devido à acusação de racismo perpetrada pelo jogador são-paulino Grafite contra Leandro Desábato, do Quilmes, por que não aproveitar para mostrar o quanto sou a favor do meu povo? Alia-se a isso o fato de grandes empresas argentinas terem sido compradas por corporações tupiniquins (como se isso fosse culpa nossa!).

Do nosso lado, é preciso refletir sobre alguns itens. Apesar de o governo ter avançado nas questões diplomáticas desde a era Fernando Henrique Cardoso, é notória a falta de comunicação do Brasil com os outros países da América Latina. Luiz Inácio Lula da Silva até mantém boas relações com líderes de países como Venezuela e Colômbia, mas é preciso bem mais do que jantares para que dois países andem em sintonia.

Enquanto o Brasil anuncia pactos econômicos mundo afora quase diariamente (Ásia, África…), países que estão logo ali ao lado sofrem com o crescimento nacional. Brasil e Paraguai, por exemplo, em vez de encontrarem, juntos, uma maneira de aproveitar o interesse de brasileiros por produtos paraguaios, e vice-versa, travam brigas sem sentido na Ponte da Amizade, prejudicando trabalhadores dos dois países.

Analisando a própria luta argentino-brasileira, chega-se à mesma conclusão. Se ambos travassem diálogos, o Mercosul certamente avançaria e produtos como as carnes e os vinhos argentinos poderiam chegar mais baratos por aqui, ao passo que as exportações brasileiras aumentariam ainda mais sem, contudo, prejudicar milhões de trabalhadores argentinos. A mesma lógica pode ser levada aos demais países da América Latina.

Talvez por ser um continente relativamente novo, falta aos países amadurecimento para analisar com clareza disputas diplomáticas e encrencas econômicas. A mídia também poderia otimizar o seu papel e noticiar com mais afinco assuntos latino-americanos. A crise equatoriana, que culminou com a deposição do presidente Lucio Gutiérrez, por exemplo, só chegou aos ouvidos brasileiros quando já havia estourado. E ninguém por aqui fala das tensões entre Chile e Bolívia, que se acirraram há meses por causa do desejo da Bolívia por uma saída para o mar.

Não é hora de aumentar rivalidades, e sim de amenizá-las. Até porque disputas para ver quem é o melhor só são bem-vindas quando restritas aos esportes – e isso se for feito de forma respeitosa e saudável.

Ariane Holzbach é jornalista no Rio de Janeiro. E-mail: arianediniz@uol.com.br.

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