O Banco Central fechou os números referentes aos meses de janeiro e fevereiro deste ano e anunciou que a crise financeira internacional bateu forte nos investimentos realizados por empresários no exterior. O montante normalmente aplicado despencou 67% em relação ao mesmo intervalo de 2008. Os gastos se referem aos investimentos diretos realizados por empresas brasileiras em outros países, englobando a aquisição de empresas locais ou a expansão da capacidade produtiva das unidades já instaladas no exterior.
No primeiro bimestre do ano passado, a soma parcial de investimentos de empresários brasileiros em países estrangeiros havia chegado a US$ 4,54 bilhões, mas um ano depois a movimentação com o mesmo objetivo não foi além de US$ 1,48 bilhão. O total de investimentos de empresas nacionais no estrangeiro, em 2008, foi de US$ 34,09 bilhões, o valor mais elevado constante das estatísticas do Banco Central, equivalendo a uma média mensal de US$ 2,84 bilhões, ou seja, quatro vezes mais que a média apurada nos primeiros dois meses do exercício atual.
A situação momentânea do mercado mundial, segundos os analistas, poderá abrir novas oportunidades para as empresas brasileiras em boa condição financeira, no sentido da aquisição de companhias estrangeiras em dificuldades nos mercados locais. Contudo, ainda não foram afastadas definitivamente as dificuldades para a obtenção de crédito. É esse o principal motivo para a retração de investimentos de empresas brasileiras no exterior, que também sofreram um recuo acentuado nas exportações. Muitas empresas exportadoras estão à procura de mercados mais atrativos em outras regiões do mundo, ampliando igualmente seu interesse pelo mercado interno.
A crise foi mais intensa no setor da produção de bens de maior valor agregado, na qual se verificou a maior derrubada da exportação de produtos desde 2002. Um levantamento patrocinado pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), demonstrou que o percentual exportado pela indústria brasileira de transformação caiu para 21,9% do volume produzido no encerramento do exercício de 2008. Entre 2003 e 2007, as vendas externas chegaram a 24,1% do total da produção, com o percentual mais elevado (25,2%), contabilizado no exercício de 2005.
Desde 2007 estão se avolumando os indícios de queda nas exportações de bens de maior valor agregado (máquinas e equipamentos), tendência estimulada pelo aquecimento do mercado interno. O estudo da Firjan constatou que muitos empresários conseguiam maior rentabilidade com a colocação de seus produtos no mercado local, sobretudo depois do mês de setembro do ano passado, quando teve início a contração do mercado externo. O setor de exportações sofreu mais com a crise financeira atual do que com a política do câmbio entre 2005 e 2007, ensejando as críticas da indústria quanto à perda de competitividade em função da desvalorização da moeda norte-americana em relação ao real. Hoje a situação é outra, mas embora com a valorização do dólar o volume de exportações continua em baixa.
A solução encontrada pelos empresários, diante do encolhimento das encomendas procedentes do exterior, foi o ajuste para diminuir a produção, tendo em vista que também o mercado interno mostra sinais de instabilidade com o desemprego crescente e a compressão da renda média da população. Para o empresário José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), o risco duplo das empresas que sofreram cortes nas exportações, serão a perda do espaço antes conquistado para outros produtores e, a expansão inevitável do domínio das exportações chinesas nos mercados de manufaturados, ocupando o espaço aberto pelos demais países. Segundo Castro, a China desenvolveu uma estratégia sólida que lhe permite desbravar novas fronteiras comerciais. Por isso, os empresários pedem maior presença do governo nas negociações bilaterais a fim de evitar que as medidas protecionistas alimentem o impacto da crise sobre o setor produtivo interno.