No último trimestre do ano passado, o caixa da Petrobras sofreu alguns abalos, tanto que a estatal de energia precisou recorrer aos bancos estatais (Banco do Brasil – BB – e Caixa Econômica Federal – CEF) e, na forma de novos empréstimos ou renovação de contratos anteriores movimentou cerca de R$ 6,333 bilhões. As operações conjuntas resultaram na obtenção de R$ 3,583 bilhões em empréstimos da CEF, além da renovação do crédito de R$ 2 bilhões e mais R$ 750 milhões de financiamentos oriundos do BB. Na ocasião, segundo os jornais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria feito críticas enérgicas à direção da estatal por estar demandando recursos de instituições públicas, sob o argumento plausível de que o dinheiro seria mais bem aplicado se direcionado a empresas de menor porte.
A empresa explicou, em resposta adequada à manifestação presidencial, que o volume de empréstimos tomados no mercado interno e, especialmente dos bancos públicos, não prejudicava a disponibilidade de recursos para os demais segmentos da economia, tendo em vista o valor insignificante em relação ao montante operado pelo conjunto do sistema bancário nacional.
Porém, as dores de cabeça dos diretores da Petrobras são mais incomodativas. Nos últimos dois anos, os investimentos realizados pela estatal na América do Sul, segundo publicaram alguns jornais, causaram prejuízos da ordem de R$ 600 milhões. A maior perda foi registrada nos investimentos feitos no Equador, que ao longo de 2007 e 2008 registrou um passivo de algo em torno de R$ 400 milhões.
Na Venezuela, os investimentos produtivos da Petrobras sofreram um dreno de R$ 175 milhões, restando como consolo a Bolívia do presidente Evo Morales, onde apesar de todo o rumor causado pelas medidas de nacionalização das instalações estrangeiras na área de petróleo e gás natural, a Petrobras ainda conseguiu um ganho de R$ 66,2 milhões ao negociar suas ações com a congênere boliviana por R$ 112 milhões.
Para especialistas no complexo internacional do petróleo, o aumento do risco político em alguns países da América do Sul era esperado, de modo que a estatal brasileira não teve como evitar perdas em seus investimentos na região. Todavia, segundo informes da própria empresa, uma grande proporção dos prejuízos é passível de recuperação e o exemplo mais explícito é o da Venezuela. Em 2006, o presidente Hugo Chávez determinou que as empresas privadas teriam, no máximo, 40% dos campos explorados, cabendo à estatal venezuelana (PDVSA) os 60% excedentes.
A nova disposição legal baixada por Chávez obrigou a Petrobras a se ajustar às circunstâncias e, por esse motivo, arcou com um prejuízo sobre os investimentos da ordem de R$ 119,6 milhões em 2007 e R$ 55,425 milhões no exercício passado. A Petrobras está convencida da recuperação das respectivas perdas financeiras lastreada na volatilidade dos preços do petróleo no mercado mundial, às condições socioeconômicas da Venezuela, mudanças favoráveis dos marcos regulatórios e, em maior escala, ao interesse de seus acionistas em relação ao desenvolvimento das reservas de petróleo.
Já se sabe que os problemas no Equador são diferentes e mais graves. No ano passado, a Petrobras foi constrangida a devolver ao governo local um bloco exploratório, implicando o prejuízo contábil em R$ 181,6 milhões, acrescidos à provisão de R$ 308,8 milhões feita em 2007, em forma de reserva, para encarar a eventualidade da nacionalização das jazidas petrolíferas e, por outro lado, o aumento da tributação.
O comportamento da diplomacia do governo Lula em relação aos vizinhos da América do Sul tem sido cauteloso, sempre que possível tentando evitar que a discussão dos problemas comuns seja feita diante do público externo. O presidente Lula prefere os bastidores e, a bem da verdade, jamais fez cobranças públicas ao colega Evo Morales, além de minimizar os prováveis elementos de fricção com o estilo bombástico do presidente equatoriano Rafael Correa e concedendo ao autoproclamado líder da revolução socialista bolivariana todo o espaço que exige para as evoluções da figura burlesca de general da banda.