Um americano, ao ver um compatriota na direção de uma Ferrari versão 2006, inflama o ego e exclama: ?Um dia, terei um carro desses!?. A historinha leva em conta pesquisa feita, este ano, pelo The New York Times, que mostra a fé dos americanos no futuro. Ante a pergunta sobre a possibilidade de um cidadão nascer pobre, trabalhar muito e ficar rico, a resposta impressionou: 80% confirmaram a hipótese, enquanto apenas 20% a negaram, índices que há duas décadas eram de 60% e 40%. E no Brasil? A considerar os últimos dados que se conhecem sobre o empobrecimento das classes intermediárias, a observação de um brasileiro desse patamar, ao ver um carrão último tipo voar à sua frente, bem que poderia ser esta: ?Um dia, cara, você vai andar de ônibus como eu?. Por mais que a mobilidade seja fator de destaque, a ilustrar os gráficos da dinâmica social brasileira, urge prestar atenção ao encolhimento das nossas classes médias. O fenômeno terá efeitos sobre o espectro político.
Estudo do professor Waldir Quadros, da Unicamp, dá conta de que a classe média, com renda entre R$ 2.500 e R$ 5 mil, encolheu de 9,13% para 7,57% da população entre 1980 e 2002, ao que se soma, ainda, a perda de 1,57% em 2003, o primeiro ano do governo Lula. Já os integrantes de famílias de classe média baixa, com renda em torno de R$ 1 mil, que somavam 57 milhões em 2002, baixaram para 54,4 milhões em 2003. A conclusão da análise do pesquisador é a de que a estagnação econômica dos últimos anos tem comprimido o poder de compra da massa trabalhadora, chegando a quase 40% o número de famílias que não conseguem, hoje, sustentar nem o padrão de vida de classe média baixa. Não por acaso, a insatisfação grassa no meio da sociedade, onde os cidadãos se angustiam com os dilemas do cotidiano: aluguel ou aquisição de moradia, educação dos filhos, sistema de saúde precário, corredor estreito do mercado de trabalho, saldo negativo nos bancos, salários deteriorados, aposentadorias defasadas, insegurança urbana e, fechando a cena do pânico, a boca escancarada dos impostos.
Desde o início dos anos 1980s se assiste a um processo de redução do tamanho da classe média, fruto da expansão da pobreza no País. A classe média urbana, assalariada, expande-se entre 1930 e 1980, na esteira da urbanização e da diversificação dos pólos econômicos. Torna-se estamento importante na construção do chamado Brasil moderno, inserindo-se nos processos político e econômico, ampliando as habilidades profissionais e aperfeiçoando os níveis educacionais. Com essa nova cara, a classe média ajusta-se às oportunidades abertas no mercado e se posiciona na vanguarda do empreendedorismo. O País abre-se por completo aos novos atores: quadros gerenciais e administradores de alto nível, grupamentos diversificados de profissionais liberais, autônomos, pequenos e médios empresários da indústria, comércio e serviços, consultores, funcionários públicos qualificados, núcleos do magistério, das artes e da cultura.
O balão desse segmento – maior gerador de empregos e maior pagador de tributos – começa a perder oxigênio no momento em que vira bagaço de fruta. É quando o Estado bebe o suco e joga o bago no lixo. Enquanto isso, dá força ao patamar mais alto. A financeirização da economia expandiu a força dos mais endinheirados, que pularam do patamar de 1,8% do total de famílias ricas, em 1980, para os 2,4% de hoje. Mais ainda: os 40% mais ricos recebem 50% dos gastos sociais do governo federal, segundo estudo do professor José Márcio Camargo, da PUC-Rio. Ele parte da constatação de que 60% dos gastos sociais no Brasil são alocados para pagamento de aposentadorias e pensões. Nesse bojo, a indignação da classe média ganha intensidade, sob a reflexão conscienciosa de seu papel político. Aliás, uma forma de purgação. Desde o ciclo militar, a classe média dedica maior atenção à vertente econômica, em detrimento da esfera política. O bolso sensibilizava mais que a cabeça, postura que afetou a própria feição institucional. A desorganização partidária, as mazelas da politicagem e as malhas de corrupção na esfera administrativa pública – eixos da atual crise – têm a ver com a baixa preocupação dos estratos médios em relação à política.
Em conseqüência, estabeleceu-se grande distância entre a sociedade e o mundo político. Os habitantes desse vazio são, principalmente, cidadãos de classe média. Explica-se: os abastados sempre foram próximos do poder e os mais carentes não estão longe porque recebem migalhas do banquete, na forma de colchões estabilizadores, como bolsas disso e cestas daquilo. A classe média, por sua vez, não ganha nada. Labuta e limpa o bolso para pagar impostos e serviços precários do Estado. A raiva vai crescendo, dando vazão a um movimento em cadeia. E assim começa uma ?revolução silenciosa?, que poderá transformar-se no fator decisivo para o rearranjo institucional no Brasil.
Gaudêncio Torquato, jornalista, consultor político e professor titular da USP.