O clima que antecedeu o encontro dos dirigentes dos países do G20, realizado ontem em Londres, foi de inteira descontração e demonstrações de amizade e admiração pessoal recíproca. Um encontro de cavalheiros. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva nunca esteve tão à vontade numa respeitável confraria fertilíssima em personalidades de proa da política mundial, pontificando entre tantas outras, os presidentes Barack Obama (EUA), Nicolas Sarkozy (França), Cristina Kirchner (Argentina) e Dmitry Medvedev (Rússia), os primeiros-ministros Angela Merkel (Alemanha), Stephen Harper (Canadá), José Luis Zapatero (Espanha) e Hu Jintao (China), todos magnificamente recepcionados pelo anfitrião Gordon Brown (Grã-Bretanha).

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O prestígio internacional do presidente Lula ficou patenteado desde a véspera, ao se providenciar a fotografia oficial da reunião de cúpula das vinte maiores economias do planeta, sendo o mandatário brasileiro distinguido com a deferência de assentar-se em lugar de honra, à esquerda da rainha Elizabeth II. O primeiro-ministro inglês Gordon Brown postou-se à direita de sua majestade.

Toda essa troca de amabilidades e elogios culminou com a efusiva declaração do presidente Barack Obama, numa pequena roda de governantes, minutos antes do início dos trabalhos. “Este é o cara”, afirmou o sorridente presidente norte-americano ao primeiro-ministro da Austrália, Kevin Rudd, enquanto apertava a mão e fazia uma menção bem-humorada à elegância de Lula: “Ele é o político mais popular da Terra. Eu o adoro”.

Ainda bem que o presidente Lula afirmara em solo francês, um dia antes de entrar no trem-bala que cruzaria o túnel construído sob o Canal da Mancha para tornar mais atraente a viagem entre Paris e Londres, definiu a cúpula do G20 como “uma reunião de amigos”, mesmo tendo o cuidado de lembrar a persistência de algumas arestas: “Será uma reunião difícil, porque nem todos os amigos estão pensando igual neste momento. Cada um está pensando no seu povo, no seu país”.

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Um gesto positivo no esforço esperado para a eliminação das barreiras partiu do presidente Barack Obama, que afirmou estar disposto a dar maior densidade ao entendimento entre seu país e os tradicionais aliados europeus. A atitude foi bem recebida, pois nas últimas semanas os Estados Unidos e alguns dos países mais representativos da União Européia têm seguido por caminhos divergentes em relação às medidas necessárias para combater o ímpeto da crise financeira mundial.

Enquanto Washington propõe a ampliação dos pacotes de estímulo econômico, posição respaldada pelos primeiros-ministros Gordon Brown e Taro Aso (Japão), o presidente francês Nicolas Sarkozy e a chanceler alemã Angela Merkel têm opiniões frontalmente contrárias à medida. Aliás, a bandeira alçada por Sarkozy, que nesse particular passou a contar com a adesão formal do governo da Alemanha, reivindica a criação de um organismo internacional destinado a controlar a movimentação das grandes instituições financeiras. Para Sarkozy, este é único instrumento capaz de prevenir as novas crises.

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Os ministros brasileiros Guido Mantega (Fazenda) e Celso Amorim (Relações Exteriores), na viagem para a Inglaterra, ante a manifestação solidária do presidente Lula, falaram de um provável acordo do G20 para a injeção de até US$ 1 trilhão nas instituições multilaterais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial (os analistas se contentavam com US$ 500 bilhões), com a finalidade de conceder empréstimos de emergência às economias mais vulneráveis. Mesmo sem fixar quantias, o documento final da cúpula fez uma clara alusão à necessidade premente de reforçar a disponibilidade financeira das referidas instituições, para que haja mais dinheiro circulando no mercado mundial.

O Brasil também pediu a eliminação do protecionismo, colocando-se na avaliação do professor Christopher Wright, da prestigiada London School of Economics, como uma das vozes mundiais mais atuantes no combate aos entraves que dificultam o fechamento da Rodada Doha.