Hélio Duque

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Não se governa de costas voltadas para o futuro. O ato supremo do governante deve ser conduzido para a construção de pontes sólidas com o futuro. O desenvolvimento, em todos os níveis, deve ser meta síntese. Melhorando as condições de vida da sociedade numa simbiose de permanente integração entre governante e governados. Quem governa olhando para trás transforma a administração em verdadeira estátua de sal. A incompetência e os desvios éticos nessas administrações ganham dimensão multiplicadora.

A sabedoria milenar oriental tem um provérbio que deveria ser um paradigma para o administrador público: ?A abelha laboriosa não perde tempo em queixas contra plantas venenosas ou estéreis que encontra no caminho, mas passa tranqüilamente por cima delas à procura da flor capaz de fornecer-lhe o mel?.

O governante inepto, desqualificado para lançar as bases de uma administração empreendedora e inovadora, fixa-se na ocupação do poder com deslumbramento diletante. Diferentemente da abelha que na sua competência procura a flor que na colméia se transformará em mel, evitando as plantas venenosas, busca as plantas estéreis. E muitas vezes, venenosas. Não se governa sozinho, mas com equipe qualificada no profundo conhecimento dos desafios que a administração do interesse público exige.

Napoleão, o Bonaparte, dizia que fazia questão de ter em volta de si homens e não bajuladores. Em reunião do Conselho de Estado, composto dos maiores nomes da vida francesa da época, exigiu: ?Não estais aqui, senhores, para concordar comigo, mas para expressar vossas próprias opiniões?. Buscava no ato de governar figuras competentes e dotadas de energia e capacidade realizadora. No seu governo tinha presença nos ministérios pessoas de quem não gostava, por ver nelas a competência requerida. Talleyrand e Fouché são dois exemplos. Napoleão não foi apenas um militar conquistador, mas um extraordinário administrador público presente ainda nos dias atuais na realidade francesa.

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Já o governante despreparado odeia o talento, preferindo a servidão dos áulicos de cabeça vazia, imaginando construir pontes onde não existe rio. A subserviência passa a ser rotina aceita e festejada. Os cortesãos do poder, em troca, impõem a prevalência do interesse particular, mascarado de interesse geral da sociedade. O poder da corrupção alastra-se gerando metástase de intolerância arcada pelos governados.

Um dos generais franquistas ao final da guerra civil espanhola em 1939, ante a destruição, morte e exílio dos seus maiores talentos pela brutalidade falangista, afirmou: ?É agradável mandar, ainda que seja num rebanho de carneiros?.

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O veneno da incompetência autoritária é ainda mais nocivo: vê a sociedade como um rebanho de carneiros, baseado na crença de que é tão fraca que requer o mando de personalidades fortes. Infunde o medo totalitário que anestesia os covardes, acreditando que a vontade estatal faz o que bem entender.

Quando a incompetência inepta na administração estatal alia-se ao autoritarismo falsificado, o atraso se robustece. E o preço a ser pago pelos governados é brutal. Qualquer governo projeta por 10 ou 20 anos para frente o bem ou mal realizado na sua administração. É irreversível. Aqueles que buscam construir uma sociedade moderna e desenvolvida, comprometida com o futuro, marcam-se na condição de empreendedores em prol do bem comum. Já os que fazem do retrovisor a meta de governo, abdicando de enfrentar o presente e lançando as pontes realizadoras do futuro, marcam-se como genocidas da esperança popular. E o preço a ser pago por gerações é incalculável, advindo da incompetência de governantes destituídos das condições fundamentais para administrar a ?res publica?. São construtores de castelos no ar.

Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.