Respeito

Não houve necessidade da posse de dons mediúnicos para o mortal comum antever o clima de ressentimento e indizível mal-estar produzido na hierarquia superior das Forças Armadas, em face da proposta do ministro da Justiça, Tarso Genro, de punir tardiamente todos os agentes públicos que tiverem sua participação comprovada, como mandantes ou executores, nas torturas contra presos políticos, durante o regime de exceção. Como se previa, a proposta de Tarso acabou significando o rompimento das feridas mal-cicatrizadas em muitos brasileiros que por motivos pessoais fizeram a opção pela luta política e, assim entraram em confronto direto com o regime militar por meio da militância em organizações logo taxadas de subversivas.

A reação da caserna foi imediata, posto que ainda restrita ao Clube Militar do Rio de Janeiro, instituição que congrega os principais oficiais superiores do Exército já afastados de suas funções e mantém acesa a chama do pensamento castrense, muitas vezes extrapolando os limites da sensatez esperada de elementos que até poucos anos tiveram a responsabilidade de comandar nossas regiões militares e seus principais quartéis e regimentos.

A entidade marcou um evento para amanhã, durante o qual a promessa é divulgar dados biográficos e fotos de autoridades do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e participantes dos escalões dirigentes do Partido dos Trabalhadores, que segundo os organizadores ostentam “passado terrorista”, segundo informações veiculadas pela imprensa brasileira. Dentre tais autoridades se encontra o ministro Tarso Genro, descrito como um terrorista atraído para a luta armada nos anos 60s e 70s, na condição de integrante da “Ala Vermelha”, enquanto acadêmico de Direito na Universidade Federal de Santa Maria (RS), sua terra natal.

Tarso respondeu pelos jornais dizendo ter “orgulho” de seu passado idealista, contestando a postura dos oficiais da reserva em colocar obstáculos à punição dos praticantes de assassinatos, torturas e violações dos direitos humanos com o acobertamento do governo militar. Em resumo, o Clube Militar pretende levantar a tese de que os excessos cometidos pelos guerrilheiros durante a ditadura também sejam punidos. Por sua vez, o ministro da Justiça continua firme na proposta de exigir castigo para os agentes do Estado, ressaltando que torturadores são passíveis de responsabilização cível e criminal. Evitando lançar lenha numa fogueira que ameaça tornar-se incontrolável, Genro declarou estar no aguardo de elementos jurídicos e técnicos sobre a rumorosa questão, para então se pronunciar de maneira segura.

Alguns setores localizam na decisão do ministro Tarso Genro ao propor modificações na Lei da Anistia, um forte conteúdo eleitoral. Tarso é um nos nomes cogitados no ambiente interno do PT para disputar a indicação da candidatura à sucessão de Lula em 2010. Há alguns meses o ministro foi citado mais de uma vez por um colunista político como mentor de um plano, objetivando causar dificuldades ao avanço do prestígio da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, tida como candidata in pectore do próprio presidente da República. Para o ministro, essa espécie de comentário não tem o menor fundamento na realidade.

No primeiro escalão do governo, um dos menos entusiasmados com a proposta de Tarso Genro é o ministro da Defesa, o também santa-mariense Nelson Jobim. A seu ver as questões levantadas pelo colega de Esplanada não dizem respeito ao Executivo, porquanto são matéria da alçada exclusiva do Poder Judiciário. Jobim tem agido como bombeiro na tarefa de acalmar os comandantes das Forças Armadas, com a finalidade de evitar que a solidariedade com o pessoal da reserva, ainda mantida sob pesada discrição, ganhe as ruas. Para juristas de escol, entretanto, a interpretação do titular da Justiça quanto ao julgamento dos crimes de tortura praticados durante a ditadura, não fere a Constituição.

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