Repensar o capitalismo

A segunda-feira foi um dia de alívio para a maioria das bolsas de valores da Europa e da Ásia, que em conjunto emitiram sinais dos primeiros efeitos benéficos do esforço dos chefes de governo das economias industrializadas, no sentido de dar paradeiro ao processo de volatilização do mercado financeiro global. Na manhã de ontem, depois de uma sexta-feira massacrante, os índices das bolsas de Londres e Frankfurt chegaram a subir 6%, seguindo as tendências de alta registradas nos principais mercados asiáticos. A confiança dos investidores voltou, dizem os analistas, tendo em vista o anúncio de garantias dos depósitos bancários com recursos liberados pelos governos.

O governo britânico tornou pública na manhã de ontem a informação de que vai injetar cerca de 37 bilhões de libras nos bancos Royal Bank of Scotland, Lloyds TSBV e HBOS, que entraram em perturbadora situação financeira. Na prática, a ajuda oficial significa que o governo poderia acabar assumindo o controle das respectivas casas bancárias, operação caracterizada pelos analistas como uma nacionalização parcial do setor. Por sua vez, o governo alemão, chefiado pela primeira-ministra Ângela Merkel, também revelou ter finalizado o pacote de emergência para a criação de um fundo de 70 bilhões de euros destinados à recapitalização das instituições financeiras afetadas pela crise, seguindo o exemplo da Grã-Bretanha.

O governo alemão também deu aval ao plano de concessão de garantias aos créditos interbancários no valor de 400 bilhões de euros com prazo limite até 31 de dezembro de 2009, objetivando restabelecer a liquidez e a confiança no sistema bancário, naquele que é maior programa de ajuda financeira desde o final da Segunda Guerra Mundial.

No encontro de 15 países da zona do euro, o presidente francês Nicolas Sarkozy, presidente rotativo da União Européia, sublinhou que o grupo está tomando medidas sem precedentes, observando que “a crise dos últimos dias entrou em uma fase que torna intolerável optar pela procrastinação e abordagens isoladas”.

Em contrapartida, os governos que estão abrindo os cofres para socorrer instituições privadas, na contramão do modelo defendido com inegável tenacidade pela ex-primeira-ministra britânica Margarete Tatcher, cuja aceitação e funcionalidade reverteu em sucessivos mandatos em Downing Sreet, vão exigir dos bancos recuperados o compromisso de gestão empresarial “sólida e prudente”, segundo registrou o importante diário madrilenho El País. A lei a ser aprovada pelas duas câmaras parlamentares alemãs permitirá ao atual ministro das Finanças, Peer Steinbrück, estabelecer normas e condições para regulamentar a remuneração de dirigentes e executivos dos bancos privados.

Pela primeira vez os chefes de governo da zona do euro se reuniram para elaborar uma declaração conjunta sobre problemas financeiros, já que a atribuição pertence aos ministros das finanças dos países integrantes do grupo. O presidente Nicolas Sarkozy, diante do agravamento da crise na Europa, convenceu os demais presidentes e primeiros-ministros a abrir mão da folga de domingo para participar da cúpula de emergencial de Paris. A princípio pensava-se num programa de salvamento generalizado, mas a primeira-ministra Ângela Merkel deixou claro que seu governo não via com bons olhos a prodigalidade de liberar recursos financeiros para socorrer a quebra de bancos de outros países. Ela assumiu posição contrária à implantação de uma versão européia do pacote elaborado pelo secretário Henry Paulson para o mercado norte-americano. A solução de consenso foi que cada governo intervenha na crise de conformidade com as peculiaridades de suas economias.

O plano será apresentado a todos os chefes de Estado e governo dos 27 países da União Européia, amanhã e quinta-feira na reunião convocada para Bruxelas. Para Sarkozy, trata-se da “refundação do capitalismo”.

Siga a Tribuna no Google, e acompanhe as últimas notícias de Curitiba e região!
Seguir no Google