No meio da tarde de ontem, a notícia que já era especulada há algum tempo se confirmou. No hospital, ainda sob cuidados de uma alentada equipe médica, o deputado estadual Luiz Fernando Ribas Carli Filho (PSB) renunciou ao seu mandato. Uma decisão previsível, pois serve para tirá-lo do foco político e permite que ele saia candidato nas próximas eleições para a Assembleia Legislativa do Paraná, no ano que vem. Em resumo, um casuísmo que pode até facilitar a vida do político.
Carli Filho se envolveu em um acidente no dia 7 de maio, quando seu Passat alemão atingiu com extrema violência o Honda Fit em que estavam os jovens Gilmar Rafael Souza Yared, de 26 anos, e Carlos Murilo de Almeida, de 20 anos. Os dois morreram na hora, numa tragédia que comoveu o Brasil. As mães dos garotos se transformaram em referências de dignidade, lutando pela única coisa que consolaria – o sentimento de justiça.
Isto porque as evidências levavam (e levam) à conclusão de que o agora ex-deputado estadual tinha (ou tem) culpa no caso. Afinal, ele estava em alta velocidade, ainda não aferida totalmente – mas que provocou um estrago inimaginável no carro dos meninos, destruindo o veículo e ferindo fatalmente os jovens. E estava embriagado, como as imagens de câmeras de segurança de um restaurante – onde foi visto com amigos, consumindo quatro garrafas de vinho importado – e o exame de sangue comprovaram. E, para piorar, Carli Filho estava com sua carteira de habilitação suspensa, por conta de multas que passavam os cem pontos.
Assim, o inquérito em andamento no Ministério Público (já bastante encaminhado) deveria chegar à conclusão de que houve, no mínimo, gravíssima imprudência do político no acidente. Da forma como as coisas aconteceram, não será surpresa se ele for indiciado por homicídio doloso, quer dizer, com intenção. Sua situação é extremamente delicada, pois não tem apoio público, as provas colhidas depõem contra ele e sequer pode se defender, pois está internado em São Paulo.
Além de tudo, Carli Filho perdeu a credibilidade. Tudo que acontece com ele passou a ser suspeito. Hoje, não se sabe sequer qual é o seu real estado clínico. A família do ex-deputado precisou divulgar imagens de um pós-operatório para comprovar a necessidade de internação – sim, pois o desencontro de informações (ele saiu em estado crítico do acidente, melhorou de uma hora para outra, piorou de novo, foi transferido para São Paulo, melhorou de novo, piorou de novo e agora ninguém sabe) impede que tenhamos certeza de tudo que está sendo falado pelos seus emissários. Quem mostrou altivez foi a mãe de Carli Filho, dona Ana Rita, que, em entrevista à TV Globo, afirmou que se o filho tiver culpa, terá que pagar.
Mas, por enquanto, Carli Filho opta pelo futuro. Sabendo que sua cassação era inevitável, pela pressão pública, renuncia. E diz fazer isso para poupar os deputados da “dolorosa missão de julgar um acusado que ainda não foi ouvido, mas que está sofrendo, em sua grande intensidade, uma condenação antecipada como resposta e punição para a tragédia”, como afirma em carta ao presidente da Assembleia Legislativa, deputado estadual Nelson Justus (DEM).
Na verdade, a renúncia permite que ele se candidate em 2010. E a carta também deixa isto claro, nas últimas palavras do agora ex-deputado: “Desejo, na medida de minhas forças, ações e esperanças, continuar a merecer o carinho e a confiança que nunca me faltaram”. Luiz Fernando Ribas Carli Filho pede, em seu ritual previsível de saída momentânea da política, o apoio para voltar daqui a um ano e meio. Quem dará esta resposta são os eleitores, muitos deles ainda indignados com a morte terrível destes dois jovens.