Ivan Schmidt

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Não faço mais que a obrigação ao tirar o chapéu de palha bastante desabado àqueles intelectuais que, com a devida antecedência no tempo e espaço dos saberes da política e da sociologia, tiveram o discernimento quase literal do estado-da-arte, expressão que Aurélio define como o estágio de desenvolvimento de uma ciência.

Eu que não tenho a menor veleidade de entrar para o seletíssimo grupo dos dicionaristas arrisco-me, entretanto, a levar um passa-moleque mesmo beirando a idade da senectude ao patrocinar nova acepção para o termo que, a meu juízo (ou falta de?) bem poderia designar uma situação dada. Exemplo: o estado-da-arte do governo Lula está pra lá de Bagdá, e o pior é que o insigne presidente não está nem aí…

Vamos, porém, ao que é sério e oportuno para o espírito inquieto de meus parcos e fiéis leitores. Talvez uns vinte, como afirma volta e meia em sua imperdível coluna dominical neste O Estado o advogado e beletrista Célio Heitor Guimarães.

Há meses comprei por bagatela na banca de saldos duma livraria mais central impossível, o livro Consenso e Conflito (Gradiva, Lisboa, 1992), de Seymour Martin Lipset, professor de sociologia política na Universidade de Stanford, depois de ter desfilado sua competência em Harvard, Berkeley, Columbia e Toronto. Essas referências bastam para avaliar o cacife de quem vou tomar emprestadas as citações do artigo de hoje. Um estudioso renomado nos maiores centros de cultura do mundo contemporâneo. Alguém que é citado com a mesma reverência atribuída a Karl Popper, Ralf Dahrendorf, Isaiah Berlin e outros monstros sagrados da ciência política.

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Pois Lipset, no ensaio intitulado ?Revolta contra a modernidade?, com base no episódio nauseabundo gerado pelo ventre do nazifascismo na Europa, discorre com propriedade sobre as rebarbas do desventurado acontecimento antes e depois da guerra, dando-lhes a forma de ?emergência periódica da ala direita, isto é, de movimentos de preservação que vêem como corruptas as evoluções políticas e culturais atuais e que pretendem revitalizar os costumes nacionais e as estruturas sociais tradicionais, ainda que em declínio?.

Nos Estados Unidos, onde o sociólogo fez algumas de suas observações mais judiciosas, a rigor há notável seara para estudos de matéria política. Assinala Lipset que ?o século XX testemunhou a erupção de uma grande e poderosa expressão de antimodernismo moralista sob a forma do Ku Klux Klan dos anos 20s. Os dados sugerem que o Klan, com vários milhões de membros racial e religiosamente fanáticos, que teve uma força considerável nos dois partidos políticos nacionais, era um movimento moralista protestante. Era uma reação ao aparente declínio da moralidade?.

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Os anos 30s também tiveram seus expoentes do moralismo religioso, como os pastores Gerald Winrod, William Dudley Pelley e o padre católico Charles E. Coughlin. Esses grupos protofascistas foram muito semelhantes ao Klan e aos nazistas alemães em seu ódio racial aos judeus, a quem chamavam, segundo Lipset, de contaminadores da esfera moral e espoliadores do campo dos negócios. Depois dos judeus, foi a vez dos comunistas arderem na fogueira ateada pelo senador Joseph McCarthy, que vertia venenosa baba ao verberar que a verdadeira religião da América era o anticomunismo. E Joe, o coroinha preferido por Deus.

Não sei quantos conhecem a designação adorada anos depois por Ronald Reagan, que só se referia ao comunismo para reiterar que essa era uma doutrina intrinsecamente má. As raízes, é óbvio, foram lançadas por Joe McCarthy e sua caça às bruxas no lídimo tribunal da inquisição que presidiu.

Trocando judeus e comunistas por muçulmanos e os nomes dos pastores de então pelos hodiernos Jerry Falwell e Pat Robertson, conselheiros informais da Casa Branca (esse foi o autor da idéia da eliminação física de Chávez pela CIA) e os pululantes born again (renascidos em Cristo), dos quais o presidente George W. Bush é a figura mais retumbante, temos o quadro dos começos do século XXI.

Uma centena de anos se passou e as coisas continuaram rigorosamente iguais. Os inimigos podem sofrer pequenas variações conforme a época e o fanatismo em voga, mas no fundo o enredo é o mesmo. Um fundamentalismo bastante enraizado no protofascismo, como o praticado pelos adeptos do Klan, é revivido pela chamada ?direita religiosa? de hoje, chefiada por ministros evangélicos que vociferam contra a legalização do uso de células-tronco, do aborto e dos direitos dos homossexuais.

Lipset afirma que em 1968 essa parte do american way of life arregaçou as mangas na campanha do governador George Wallace à presidência. Depois não reelegeram Carter, votaram em Reagan e Bush pai, esnobando Clinton. Agora deitam e rolam com um igual dando ordens no Pentágono, na CIA e no FBI. É mole?

Ivan Schmidt é jornalista