Hélio Duque
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária tem nível de excelência em escala mundial. Nas últimas três décadas, a Embrapa foi responsável pela modernização produtiva da agropecuária brasileira. Fruto das pesquisas e estudos desenvolvidos nos seus laboratórios e núcleos pioneiros espalhados pelo território nacional. Hoje, a espetacular performance da agropecuária nativa invadindo e ganhando mercados internacionais não teria sido possível sem a sua decisiva atuação na geração de tecnologias avançadas. Sem esse suporte técnico teria prevalecido a baixa produtividade impeditiva de penetração nos mercados mundiais.
Soube competentemente investir na formação dos seus principais e notáveis pesquisadores nas grandes universidades do mundo. Concedeu bolsas de estudo a esses profissionais para a obtenção de doutorado nas suas especialidades. Retornando ao Brasil, colocaram as suas inteligências a serviço do avanço modernizador da agricultura nacional. Foi o ocorrido com o pesquisador José Tadashi Yorinori, doutorado pela Universidade de Illinois e considerado um dos grandes responsáveis pela expansão da soja no Brasil. Respeitado internacionalmente pelos trabalhos que desenvolveu para o controle de doenças, a exemplo da ferrugem da soja geradora de perdas de bilhões de dólares para os produtores brasileiros. No início da década de 70, a produção de soja ocupava 1 milhão de hectares e atingia 1 milhão de toneladas. Em 2006, o Brasil cultivou 20,6 milhões de hectares e obteve uma produção de 58 milhões de toneladas. Com a autoridade de ter vivido a sojicultura por 37 anos de exaustivas pesquisas, Tadashi Yorinori constata: ?Em alguns lugares, a produtividade quintuplicou no período. Isso se deu com melhoramento genético e manejo, frutos de pesquisas que tornaram o Brasil o maior exportador mundial do grão?.
A grande matriz para o desenvolvimento dessa realidade que abarca outras culturas agrícolas que vêm obtendo elevados níveis de produtividade, foi fruto de investimentos pesados feitos pela Embrapa. Não se improvisa na formação de cientistas e pesquisadores de comprovada competência. O talento, a experiência dedicada de vários anos com aplicação disciplinadora é fundamental.
Recentemente em encontro com velhos amigos que integram o quadro de servidores da Embrapa, tomei conhecimento de uma realidade inquietadora. Todos os pesquisadores mais experientes e que foram a base do seu êxito estarão deixando a empresa até o final de 2009. A origem remonta a 2006, com a implantação do programa de demissão incentivada. Na área técnica, 243 pesquisadores dos mais importantes já se desligaram. Da totalidade do quadro de servidores, 2.221 integram o núcleo de pesquisas, onde o impacto será maior. Até o final do ano e no decorrer de 2008 e 2009, a demissão voluntária se alargará. E vai se refletir no futuro de modo profundo. A redução de recursos para pesquisas vem diminuindo, gerando a perda de notáveis competências. Muitas delas passam a integrar os quadros de empresas privadas que trabalham no melhoramento genético.
A remontagem do quadro de pesquisadores está em curso estatal. Foram contratados cerca de 200 profissionais com doutorado com o teto salarial de R$ 5,9 mil, acrescido de 30% de adicional pelo título de Ph.D. O salário base dos antigos pesquisadores era de R$ 12,2 mil, acrescido das vantagens. As novas prioridades estratégicas da empresa têm na redução salarial do servidor o seu ponto forte. Dentro dessa orientação, para evitar a perda total da sua memória histórica, os recém-contratados se submetem a um período de experiência probatório sob a supervisão de um tutor até concluir a elaboração de um programa de trabalho ou de um projeto de pesquisa dentro das prioridades da empresa.
Objetivamente, há de se reconhecer que a perda de cérebros pela Embrapa não é um dado positivo para a economia brasileira. Ao contrário. Em todo o mundo desenvolvido pesquisadores e cérebros privilegiados, mesmo quando se aposentam, prestam consultoria em nível sênior para as áreas em que são especialistas. Não sendo essa uma política adotada pela Embrapa, esses talentos, respeitados internacionalmente, são descartados. Muitos deles ingressam na iniciativa privada com salários e bônus correspondentes a 2, 3 ou mais vezes ao que recebiam na estatal.
O testemunho de José Tadashi Yorinori, hoje na iniciativa privada, é definitivo: ?Havia dificuldades para tocar as pesquisas de campo. Os recursos diminuíram como em outras instituições estatais que com o tempo deixaram de existir. Infelizmente, a Embrapa está indo no mesmo caminho?.
Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.