Ivan Schmidt
Em 1882 corria de boca em boca o rumor da iminência duma guerra entre Brasil e Argentina por causa da Questão das Missões. O imperador Pedro II recebeu em visita diplomática, no Rio de Janeiro, o último ex-presidente argentino Avellaneda e a ele disse palavras premonitórias: ?O Brasil hoje é um império, amanhã pode ser uma república?. O objetivo do encontro, que era celebrar a paz entre os dois países, felizmente, foi alcançado, dando pleno significado a uma outra frase memorável do imperador: ?Necessitamos salvar meio continente e salvaremos?.
Assim era Pedro II, que em janeiro de 1889, ano da Proclamação da República, segredava a um nobre sua resoluta convicção republicana, e mais, que se fosse egoísta proclamaria ele próprio a república para fazer jus à mesma glória devotada a Washington, por quem cultivava uma admiração irrestrita. Em junho, o visconde de Ouro Preto recebeu carta-branca para organizar o último gabinete da monarquia brasileira, num contexto em que os planos imediatos deveriam ser a retomada do crescimento econômico, a industrialização e a agilização da máquina administrativa. O que não parece novidade depois de mais de um século. A efervescência política, porém, não trazia bons augúrios para Pedro de Alcântara.
Na apresentação dos ministros à Câmara, a primeira manifestação de rebeldia se fez ouvir pela voz do padre João Manuel:
– Viva a república!
Em novembro, a cidade do Rio de Janeiro fervilhava de boatos, os mais desencontrados. Dizia-se que o governo iria dispersar os batalhões provinciais para enfraquecer o Exército e que Ouro Preto não convidaria oficiais para o baile da Ilha Fiscal, na noite de 14 de novembro. Mas o boato mais forte era a prisão de Deodoro e sua substituição no Ministério da Guerra por Floriano Peixoto.
Em defesa do imperador diga-se que abominava a idéia do derramamento de sangue pela manutenção da monarquia, mesmo sabendo que o advento da república era inevitável. Contudo, não nutria a hipótese de ser apeado do poder depois de tantos anos de bons serviços em favor do Brasil e dos brasileiros. Estava enganado. Aos 64 anos, desgastado pela doença, vítima de sórdidas intrigas políticas e privado do convívio com os principais colaboradores (quase todos haviam morrido), o imperador acabou literalmente sozinho, tendo ao lado apenas a imperatriz Teresa Cristina e poucos serviçais, quando foi levado de madrugada a embarcar no vapor ?Alagoas? que o levaria para o exílio na Europa.
Para homenagear os oficiais da Marinha de Guerra do Chile fora organizado o baile da Ilha Fiscal, no qual se detonaram 50 peixes grandes, 3 mil sopas, 800 latas de lagosta, 800 quilos de camarão, 100 latas de salmão, 3 mil latas de ervilha, além de outros acepipes. A monarquia podia estar falida, mas era irrepreensível na hora de esbanjar pompa e circunstância, embora não dispensasse sequer a prática do que hoje se chama de crime ecológico: foram para os caldeirões e grelhas da cozinha real 800 inhambus e 50 macucos, além das toneladas de perus, marrecos, frangos, faisões e cabritos. A comezaina foi regada por vinhos finos, cerveja e água mineral, mas o banquete pantagruélico só terminou depois que o derradeiro pastel de nata provocou o último arroto nas entranhas do nababesco carnê de convivas do paço imperial.
No dia seguinte, amuado e meio zonzo pela doença que lhe recolhera ao leito, à frente da tropa, dos intelectuais republicanos e da multidão que o acompanhara pelas ruas, Deodoro, amigo de Pedro II, sem disparar um tiro, ordenou a prisão de Ouro Preto, proclamou a república, dirigiu um manifesto à nação e organizou o governo provisório. A monarquia brasileira estava sepultada.
Os principais ministros do governo provisório chefiado por Deodoro foram Rui Barbosa (Fazenda), Benjamin Constant (Guerra), Aristides Lobo (Interior), Quintino Bocaiúva (Exterior), Demétrio Ribeiro (Agricultura) e Campos Sales (Justiça).
Abatido pelo banimento definitivo, pouco tempo depois, na fria madrugada de 5 de dezembro de 1891, no quarto 18 do Hotel Bedford, em Paris, morria o imperador do Brasil, pobre e simples como sempre vivera. Um de seus últimos amigos, Mota Maia, retirou os travesseiros sob a cabeça do monarca e colocou em seu lugar uma almofada, cumprindo o inocente desejo do finado.
Assim se referiu ao fato o historiador Sebastião Costa Teixeira de Freitas: ?Naquela almofada estava a terra do Brasil, que pedira que lhe trouxessem para repousar a cabeça na ilusão de ter restituída a pátria que tanto amou?.
Ivan Schmidt é jornalista.