Ivan Schmidt

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É muito arriscado, até para efeito de mera conjectura, traçar um panorama possível das relações institucionais entre os governos federal e do Paraná e, na mesma linha de raciocínio, do relacionamento entre o presidente Lula e o governador Roberto Requião. Sabem todos que o governador, várias vezes, confessou não somente ser admirador contumaz de Lula, mas seu fiel eleitor. Não há contradição com o exercício político de Requião, convicto nacionalista de centro-esquerda, estando aí a diferença com as demais espécies da mesma plumagem com reflexos jacobinistas que preferem o lado oposto.

Na eleição de 2002, quando a aliança PMDB-PT no Paraná funcionou nos dois turnos, Lula, nas ocasiões em que aqui esteve, sempre afirmou gostar de ?Riquião? de graça. Na última campanha, quando o entendimento ficou em banho-maria a maior parte do tempo, só aquecido nos estertores do segundo turno, o presidente esteve novamente aqui, mas o governador sequer se deu ao desfrute de comparecer ao comício da Boca Maldita, nomeando como representantes os escudeiros Orlando Pessuti, Luiz Cláudio Romanelli e Doático Santos.

Durante longo período do atual mandato, mesmo entregando o posto de secretário do Trabalho ao padre Roque, em cuja pasta encontrou refúgio uma multidão de quadros do PT, o entendimento do Palácio Iguaçu com o presidente da executiva estadual, deputado André Vargas (hoje eleito para a Câmara dos Deputados), transcorreu em nível próximo às discussões de botequim.

A bancada petista na Assembléia dividiu-se entre apoiadores cordatos do governador e a minoria independente, como os deputados Tadeu Veneri e o próprio Vargas, que mais recentemente viu-se constrangido a envergar desconfortável fatiota chuleada pelo ministro Paulo Bernardo, em expressiva troca de favores com Requião nutrida pelo apoio irrestrito à candidatura de Gleisi Hoffmann ao Senado.

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A despeito das inúmeras vezes em que o deputado André Vargas mostrou-se amuado pelo duro tratamento do governador ao presidente, quase sempre em função das sessões semanais da escolinha do professor Raimundo, nas quais desfilaram – um a um – os mais drásticos críticos da política econômica do governo, hoje o presidente estadual do PT parece ter sido o mais esforçado dos discípulos da arte cada vez mais cultivada por políticos, a novilíngua.

Vive-se no curto período que antecede a segunda posse de Requião no governo estadual a expectativa da formação do secretariado e demais penduricalhos do primeiro escalão, embora aos partidos seja de interesse pantagruélico também o segundo e terceiro degraus da escada do poder, o mesmo clima da gênese do atual mandato. Talvez, para afastar-se do picadeiro onde, decerto, fariam infindáveis evoluções os egos inflados da província em busca de lugar ao sol – a imagem ficou pior que o assanhamento pelos cargos – o governador retirou-se para principesco refrigério em terras gaulesas. Ao regressar, quem sabe, trará no bolso um papel com a lista dos ungidos.

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E quanto ao relacionamento do Paraná com o governo federal? É uma incógnita. A capacidade imaginativa, contudo, tem descambado para além dos limites do razoável. Já se propalou que o vice-governador Orlando Pessuti poderia ocupar o Ministério da Agricultura, ao passo que o supervisor nacional do Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), Walter Bianchini, seria brindado com a Secretaria da Agricultura. A autoria do bosquejo é atribuída ao diretor-geral de Itaipu, Jorge Miguel Samek, ao lado de Gilberto Carvalho, o paranaense que mais desfruta da intimidade de Lula.

Lembremos que Requião é do PMDB e que o partido não esconde a vocação governista, dispondo-se a beliscar ministérios importantes e, em contrapartida, apoiar o andamento do projeto de reanimação do desenvolvimento econômico. Se o Brasil voltar a crescer como se espera, é óbvio que o Paraná com seu potencial para o agronegócio será beneficiado, fazendo piscar com intensidade na mente do governador e de seus hierofantes o alerta de 2010. Quem viver, verá, diria o Conselheiro Acácio.

Ivan Schmidt é jornalista.