Numa semana juncada por péssimas notícias adubadas pela verdadeira libertinagem cometida até por parlamentares considerados inatacáveis, como o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), na concessão dos créditos referentes às cotas pessoais de passagens aéreas para amigos, esposas, filhos ou namoradas, ademais do inusitado bate boca entre os ministros Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa, no plenário do Supremo Tribunal Federal (STF), o dado mais inquietante despontou da projeção feita pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), sobre a economia global.

continua após a publicidade

O Brasil não ficou de fora da citada análise técnica, e o FMI cumpriu o doloroso dever de informar que nossa economia sofrerá até o final do corrente exercício a contração de 1,3%, diretamente relacionada com os impactos da crise sobre o sistema financeiro mundial, desde setembro do ano passado. Está claro que a instituição multilateral mantém uma visão pessimista sobre a economia brasileira, mostrando maior preocupação que as próprias autoridades financeiras do País. Devemos recordar que o último relatório produzido pelo Banco Central (BC) e divulgado em março, ao tratar da expansão dos índices inflacionários, projetava o crescimento de 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB) desse ano.

Segundo a versão corrente entre técnicos do FMI, o impacto da crise está sendo subestimado pelo governo e bancos nacionais, pois a constatação que serve de base para suas conclusões é que os mercados emergentes são os mais prejudicados pelos efeitos negativos dos choques ocorridos nas economias industrializadas. Ou seja, para o FMI os mercados emergentes oferecem um campo aberto para os efeitos corrosivos da crise financeira e, muitas vezes, sequer os observadores mais habilitados conseguem discernir as diferenças.

O Brasil não é uma economia fraca, admitiu Charles Collyns, diretor-adjunto do departamento de pesquisas do FMI, na entrevista publicada pelo Valor Econômico e mais três importantes jornais latino-americanos na última quinta-feira, na qual os técnicos da instituição tornaram pública a edição atualizada do relatório semestral sobre o cenário econômico mundial. Todavia, acrescentou que “as projeções para o Brasil foram rebaixadas em linha com nossas projeções para a economia mundial”. Para o diretor-gerente Dominique Strauss-Khan, maior autoridade da instituição, o prolongamento da recessão mundial poderá amontoar riscos para “bancos que hoje parecem sólidos e não foram contaminados pela crise de confiança que abalou o setor financeiro nos países avançados”, conforme relatou o repórter Ricardo Balthazar.

continua após a publicidade

O FMI entende que os problemas enfrentados pelo Brasil em função da crise prefiguram um reflexo de sua inserção na economia global, refutando a crença de que as dificuldades decorrem de políticas equivocadas. Segundo Nicolas Eyzaguirre, diretor da área que monitora eventos econômicos relacionados com a América Latina, “o Brasil será capaz de surfar a onda quando ela subir de novo”. Afinal, este é o anseio compartilhado não apenas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os integrantes da equipe econômica, o ministro da Fazenda Guido Mantega e o presidente do BC, Henrique Meirelles, à frente do cortejo, mas pelo conjunto de uma sociedade em estado de flagrante esgotamento diante dos pesados ônus advindos de planos econômicos fracassados.

Não deixou de causar surpresa nas altas esferas da administração do FMI, a capacidade de recuperação exibida pelos países da América Latina face ao agravamento da crise. Strauss-Kahn explicou que “há diferenças entre os países, mas a região não está nem melhor nem pior que a média mundial”, ressalvando que crises anteriores foram bem mais nefastas para a região.

continua após a publicidade

Quando a saúde do sistema financeiro se restabelecer a economia mundial voltará a crescer. Mas, a recuperação será lenta e somente começará em meados do próximo ano, exigindo alguns meses para ganhar impulso. Afinal, a hecatombe da baixa financeira contábil na economia global chegou a US$ 4,1 trilhões. Palavra do FMI, que todo mundo imaginava morto e enterrado.