Reflexo da crise

A decisão da Companhia Vale (que já não é mais do Rio Doce) de reduzir sua produção surpreendeu o mercado. Não tanto pelo fato em si, até esperado em vista da crise internacional. Mas sim pela força do ato, que implica em interrupção do trabalho de várias instalações, e obrigando a empresa a dar férias coletivas a seus funcionários. Por ser matéria-prima básica da produção industrial e da construção civil, o mercado do aço seria afetado pela desaceleração da economia. A Vale agiu antes – e isto sempre provoca susto.

Ainda mais naquela que é a maior marca brasileira na economia global. Não é a maior empresa do País, mas é quem melhor percebeu a mudança dos negócios e partiu para investimentos em todo o planeta. A Vale tornou-se “player” do mercado mundial de minério de ferro, disputando com as gigantes indianas a hegemonia no setor. Ao mesmo tempo, ousava ao mudar seu nome, ligado às tradições brasileiras (a Vale do Rio Doce é, para muitos, um “patrimônio” do Brasil, que jamais deveria ter sido privatizada – imagine, então, mudar de nome!). E, neste momento, promove uma campanha institucional caríssima, protagonizada por Fernanda Montenegro e João Gilberto.

Seu presidente, Roger Agnelli, é um dos mais vitoriosos empresários brasileiros. Foi sob seu comando que a Vale transcendeu as fronteiras, comprando empresas por todos os cantos, abrindo seu capital na bolsa de valores de Nova York e capitalizando a marca em nível global. Passou a ser um personagem importante da economia mundial, liderando um grupo em plena expansão.

Agora, Agnelli terá que encarar a crise financeira que abate o mundo. E agiu com frieza, interrompendo a produção e fechando temporariamente fábricas em vários países. além das unidades no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, serão afetadas as operações na França, na Noruega, na Indonésia e na China.

Sinal de que a preocupação quanto aos rumos da crise internacional é maior do que apregoa o governo brasileiro. E, convenhamos, cautela e caldo de galinha, neste momento, não fazem mal a ninguém.

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