Referências poucas e obrigatórias

Para um Congresso que teve o concurso de homens que pautaram a vida pública com rigoroso e, não raro, exagerado apego à ética e à transparência quando nem era preciso invocar esses princípios, por todos reconhecidos como obrigações corriqueiras no comportamento de quem se arvorava o privilégio de representar a sociedade, os dias atuais são de acentuado desgaste e descrença na capacidade endógena da corporação em livrar-se dos que a enxovalham.

Para exemplificar a qualidade moral de brasileiros que já passaram pelo Congresso, seja na Câmara ou no Senado, bastaria relembrar Rui Barbosa, Luiz Carlos Prestes, Arthur Bernardes, Raul Pilla, Bento Munhoz da Rocha, Carlos Lacerda, Pedroso Horta, Adauto Lúcio Cardoso, Ulisses Guimarães, Tancredo Neves, Miguel Arraes, Paulo Brossard, Mário Covas e Franco Montoro, apenas um fragmento da imensa policromia humana que enriqueceu, sobremaneira, a crônica histórica de ambas as casas legislativas federais.

No entanto, não se pode esquecer que pelos corredores do Congresso já desfilaram também figuras há muito relegadas por essa mesma história, tais como Barreto Pinto, Tenório Cavalcanti, João Alves, Hildebrando Pascoal e muitas outras, com as quais identificam-se plenamente os Roberto Jefferson, José Janene, Valdemar da Costa Neto ou Pedro Correa de agora. Felizmente são umas poucas referências, posto que obrigatórias, para a compreensão do peso do saco de maldades que tais cavalheiros fazem questão de esvaziar sobre a instituição.

A podridão que não é de hoje nas entranhas do Congresso resulta da somatória de comportamentos esquizóides, como mania de grandeza e inveja, além do desejo insopitável de obter vantagens pecuniárias com o aluguel dos mandatos ou a venda de votos e, vício arraigado na vida partidária, a nomeação de apadrinhados para ministérios ou altos cargos de direção nas empresas estatais.

O atrelamento de quaisquer partidos existentes hoje no Brasil à suposta base de sustentação política do governo, com as exceções de praxe, pelo que se deduz da onda de rumores sobre propinas e mesadas pagas a membros da famigerada base, não é simples boato plantado para ver o circo pegar fogo. São bem lembradas as concessões de emissoras de rádio e televisão a congressistas, a fim de garantir votos suficientes para a aprovação do quinto ano de mandato do ex-presidente José Sarney.

Lembrança ainda mais recente está na confirmação da compra dos votos de alguns deputados federais, quando se tratou de aprovar a emenda constitucional da reeleição, medida que fez desabar o segundo mandato no regaço de Fernando Henrique Cardoso.

À luz dessa ótica realista a denúncia do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), atribuindo ao governo Lula – excluída a pessoa do presidente – e ao Partido dos Trabalhadores a repelente prática de aliciar votos em troca de cargos e dinheiro por fora a sequiosos membros da base, leia-se PP e PL, é de uma gravidade quase sem precedentes na recente história republicana.

Jefferson, político notório pelas posições peculiares que patrocinou durante a CPI de PC Farias, em defesa do então presidente Fernando Collor, que acabou alijado do cargo pela comprovação irrevogável das malandragens praticadas em seu governo, no auge da verborragia descontrolada invectivou o ex-ministro José Dirceu de ?chefe do maior esquema de corrupção jamais visto no Brasil?. É uma bordoada tal, que nem PC Farias, espécie de depositário infiel do dinheiro carreado por empresários que tinham ou estavam interessados em fazer negócios com o governo, recebeu no conturbado período que desaguou na renúncia do presidente.

A CPI dos Correios, primeiro grande teste de resistência a que o governo Lula será submetido, bem assim sua base de sustentação no Congresso, a despeito de muitos a terem por improcedente e desnecessária e, em maior grau, pelo retardo na discussão e encaminhamento produtivo das questões que, realmente, dizem respeito aos interesses da população, deverá subordinar suas atividades ao legítimo direito da cidadania de conhecer toda a verdade.

A fase vivida pelo governo e instituições republicanas, especialmente o Congresso, embora os contextos sejam adversos, permite ao observador traçar uma tímida analogia com a turbulência causada pelo Terremoto de Lisboa. O marquês de Pombal, primeiro-ministro português, a quem a história qualifica de último déspota esclarecido, diante do estupor geral assumiu por inteiro a autoridade e proclamou: ?A ordem é enterrar os mortos e cuidar dos feridos?.

Ivan Schmidt é jornalista.

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