Não faz muito tempo que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, diante de um auditório constituído por políticos, empresários e formadores de opinião, proclamou em alto e bom som que não incorreria no erro simplório de economizar um mísero centavo de investimentos em projetos sociais e obras de infraestrutura, citando nominalmente a Petrobras entre os segmentos dos quais cobraria, com máximo rigor, a determinação de gastar todo o dinheiro orçado para os planos de expansão.

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O discurso presidencial, no entanto, foi atropelado pela realidade aziaga a muito custo percebida pelo ministro Paulo Bernardo (Planejamento, Orçamento e Gestão), para quem agora se tornou inevitável o contingenciamento de até R$ 46 bilhões nos gastos da máquina federal no exercício corrente. Novos reajustes salariais para servidores, concursos públicos previstos para esse ano e outros penduricalhos sem tanta importância para o conjunto da obra, deverão aguardar oportunidades mais propícias. A culpa, como se tornou voz corrente foi atribuída, tardiamente, à crise financeira internacional.

A lamentação natural dos setores vulneráveis ao contingenciamento de recursos do orçamento, em especial o funcionalismo público, dando azo à manjada cantilena de que a corda sempre arrebenta no lado mais fraco, rapidamente perdeu grande parte de seu poder de constrangimento, ao se noticiar a decisão interna da Petrobras quanto ao corte mínimo de 30% nos custos dos produtos e serviços que lhe são fornecidos. A providência inicial foi convocar fornecedores para a renegociação amigável dos contratos que entraram em vigência há menos tempo. A medida mais relevante foi cancelar a maioria das licitações em andamento, com a finalidade de reduzir o custo final dos projetos.

O programa de investimentos da estatal de energia engloba R$ 174 bilhões até 2013, figurando como um dos principais instrumentos do governo federal na luta contra a recessão da economia. Contudo, o conselho de administração da empresa, formado em grande parte por representantes do próprio governo, já deu o aval para a decisão de cortar gastos, mesmo que a medida signifique o cancelamento temporário de vários projetos importantes. Segundo o noticiário, o primeiro empreendimento a ser prejudicado pelo corte de investimentos será a refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, cuja entrada em operação estava prevista para setembro de 2010, um mês antes das eleições presidenciais, caracterizando uma precisão cronométrica somente rivalizada pela famosa indústria relojoeira suíça. Com o enervante corte de despesas não será possível liberar a unidade antes do primeiro semestre do ano seguinte.

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Pela voz do diretor de Abastecimento, Paulo Roberto Costa, a Petrobras comunicou ao mercado que não tem interesse no retardamento de nenhum projeto em execução, da mesma forma que não pretende executá-los a qualquer custo somente para evitar os atrasos. O mercado, por sua vez, entendeu que a estratégia de renegociar cada contrato em separado significa o “adiamento branco” de determinadas obras, passando a estatal a aguardar condições favoráveis de demanda, preços e crédito.

No setor de exploração e produção, o carro-chefe da Petrobras, foram suspensas as licitações para a construção das plataformas P-61 e P-63, e a empresa também revisa o planejamento de outras encomendas. O argumento predominante na empresa para solicitar descontos, em alguns itens superiores a 30%, foi a verificação da queda abrupta dos preços do barril de petróleo, que desabaram de US$ 120 para US$ 50. Uma das ressalvas é que a receita das maiores petrolíferas do mundo foi corroída pela crise financeira, obrigando-as a rediscutir o cronograma de alguns projetos, com repercussão imediata sobre a demanda por equipamentos pesados.

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Empresários ligados à indústria naval e fornecedores de equipamentos foram os primeiros a acusar o golpe da renegociação de preços defendida pela Petrobras, com vistas à construção e afretamento de navios de apoio às plataformas de exploração de óleo e gás natural. O mar não está para peixe.