Recitando Maquiavel

?É mais seguro ser temido que amado, quando se tenha de falhar numa das duas?, ensina Nicolló Machiavelli, num livrinho escrito há 500 anos, muito citado, mas pouco lido: O Príncipe.

Maquiavel está longe do amoralismo cínico com que é tratado em sociedades como a brasileira. Ao contrário, erudito e sofisticado, foi titular na secretaria da Chancelaria de Florença, onde desempenhou importantes missões diplomáticas. O seu livro é uma fundamental leitura para os estudiosos da Política. Assim mesmo, com P maiúsculo. Um dos seus analistas mais acurados chega a afirmar: ?Não é só a mais famosa obra da literatura política de todos os tempos, como também a mais discutida e a que é tida, aliás, sem razão, no mais baixo conceito, por parte dos críticos hipócritas, impediosos e invejosos. Há duas posições em relação a Maquiavel: a dos que o atacam e a dos que o elogiam. Nunca, porém, existe quem o ignore?.

A renascença italiana foi um tempo de turbulências, onde tiranetes travestidos em ducados, baronatos, principados, governavam com mão de ferro. Uma Itália fragmentada e estiolada, cobiçada e ocupada por franceses, espanhóis, austríacos, que se aliavam a uma nobreza submissa: foi nesse cenário que Maquiavel viveu. Na República de Florença, na condição de chanceler, passa a nutrir admiração pela maneira habilidosa e impiedosa como César Bórgia exercia o poder. Com a restauração, anos depois, dos Médicis, o extraordinário florentino recolhe-se à vida privada, num verdadeiro auto-exílio.

Dedicando-se obsessivamente aos estudos e pesquisas históricas, vai imortalizar-se. O Príncipe, texto sintético e eficaz, sua fundamental obra, foi oficializada em 1513.

?O Príncipe precisa ser raposa para conhecer as armadilhas e leão para aterrorizar os lobos.? A astúcia de Maquiavel conserva atualidade, sobretudo para governantes, aconselhando-os: ?O Príncipe não precisa possuir todas as qualidades que demonstra ter, bastando que aparente possui-las? ou ?é melhor ser impetuoso do que circunspecto, porque a sorte é mulher e, para dominá-la, é preciso contrariá-la?.

Verdadeiro tratado do comportamento humano. O Príncipe, além de leitura fundamental e saborosa, mantém uma contemporaneidade assombrosa. A palavra é do genial florentino:

1 – ?Quem se torna príncipe mediante o apoio do povo, deve manter o povo como amigo?. Lição atualíssima.

2 – ?Um príncipe é estimado quando é verdadeiro amigo e verdadeiro inimigo.? Tomar partido ao invés da neutralidade.

3 – ?Um erro do qual os príncipes se defendem com dificuldades: os aduladores.? As cortes estão repletas desse tipo.

4 – ?A sorte se deixa vencer mais pelos audaciosos que pelos prudentes.? A audácia, sempre.

5 – ?Existem três tipos de mentes: uma, que entende por si mesma; outra, capaz de discernir o que outros entendem; e a terceira não entende nem a si nem a outros; a primeira é ótima, a segunda, excelente, a terceira inútil.? Nada a acrescentar.

Pensador vigoroso, com extraordinária visão do poder, a doutrina maquiavélica não é, como se imagina, sinônimo de esperteza e de falta de caráter. Ao contrário, delimita com maestria e sofisticações como o Príncipe (governante) deve exercer o poder do Estado. Com autoridade e inquebrantável vontade. Maquiavelismo significa saber exercer com eficácia, competência e coragem o poder na busca do bem comum. O fundamento maior da ação política, nas sociedades onde impera a consciência de cidadania.

Muitos governantes, nesse tempo brasileiro, são destituídos de um mínimo de formação para entender e extrair ensinamentos fundamentais dos sábios conceitos de Maquiavel. O que é uma pena. Daí muitos adonarem-se da juba de leão quando, em verdade, são amestrados gatos angorás. São atores da política. E isso é o anti-Maquiavel.

Hélio Duque é doutor em Ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.

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